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Sonhando com as Máquinas de Voar – I

Por J. A Moraes de Oliveira Uma das figuras humanas mais animadas da turma das sextas-feiras no “Bar Lilliput” era o engenheiro Kurt Weiss, …

Por J. A Moraes de Oliveira

Uma das figuras humanas mais animadas da turma das sextas-feiras no “Bar Lilliput” era o engenheiro Kurt Weiss, colega de remo de meu pai e antigo membro da equipe da “Linha da Lagoa”, a primeira linha aérea comercial regular do Rio Grande do Sul.

 

As estórias dos primeiros vôos e as façanhas daqueles aviadores pioneiros eram o assunto inesgotável para as longas conversas daquele grupo, reunido todas as sextas-feiras ao redor da mesma mesa do pequeno bar da Avenida Otávio Rocha.

 

Um dos divertimentos prediletos da turma do “Lilliput” era provocar o alemão Kurt Weiss para que ele contasse em detalhes as peripécias dos primeiros vôos. E ele não se fazia de rogado – limpava os grandes bigodes à kaiser, pedia uma nova rodada de chope com schnapps e conduzia todos da mesa a incríveis viagens sobre as lagoas e o pampa gaúcho.

 

O grande personagem das estórias era o hidro-avião “Atlântico”, um Dornier Wal, que decolava do cais do porto e voava para o sul, em direção a Pelotas e Rio Grande. O avião pertencia à antiga Condor Syndikat e ainda ostentava a matrícula alemã original. Em junho de 1927, já com o prefixo P-BAAA, ele seria transferido para a recem fundada Varig – estava nascendo a aviação comercial brasileira.

 

Nas sextas-feiras, eu sabia que havia muito o que ouvir quando meu pai chegava em casa, depois daquelas rodadas de reminiscências e muito chope. Ele trazia uma bandeja com fresquíssimas empadas de frango da Confeitaria Pelotense e uma reserva de incríveis estórias de aviões e aviadores.

 

Sempre começava contando como o seu grupo testemunhara a passagem por Porto Alegre do mais famoso aviador da época, Jean Mermoz, que inaugurava o correio postal aéreo, entre o Rio de Janeiro e Santiago do Chile. A narrativa mais emocionante incluía a participação de seu amigo Kurt Weiss, convocado com urgência para fazer a revisão mecânica no avião de Mermoz, antes dele decolar em direção aos Andes, para completar a última etapa do “Correio Sul”.

 

As estórias que meu pai trazia eram ricas em detalhes e nunca mais consegui esquecê-las, como as dos primeiros vôos regulares para Rio Grande. Ele contava que o piloto, para não perder a rota, acompanhava o litoral da Lagoa dos Patos ou a linha do telégrafo que cruzava os campos. Para medir a intensidade do vento, o piloto mirava o topo dos eucaliptos, e para saber se uma tempestade se aproximava, observava se as vacas procuravam abrigo nos capões de mato.

 

Ao chegar a Pelotas, o pequeno avião voava baixo sobre a cidade para avisar a equipe de terra. Então, fazia um vôo rasante no campo de aviação, para espantar o gado e assim poder pousar.

 

No solo, o pessoal de terra corria para montar mesas com toalhas brancas, abastecidas de sanduíches e refrescos para os passageiros. E logo chegava um caminhão-tanque para abastecer o avião, seguido de um pequeno ônibus alugado, trazendo os passageiros que iam embarcar e conduzir os recém-chegados até a cidade. Habitantes da redondeza chegavam a cavalo ou de charrete para observar o aeroplano e seus estranhos passageiros.

 

Na hora do embarque, o piloto e o mecânico de vôo se perfilavam na porta do avião, seguindo a tradição dos primeiros vôos da Lufthansa. Os passageiros vestiam terno completo e as raras damas, seus melhores vestidos de passeio e elegantes chapéus, que retiravam para entrar pela estreita portinhola da cabina.

 

Algumas horas depois da chegada, o mono-motor levantava vôo, de regresso a Porto Alegre, enquanto o pessoal de terra recolhia mesas e cadeiras, baixava a biruta e fechava a cadeado o portão do campo de aviação.

 

Segundo o meu pai, um dos mais importantes homens da equipe de terra era o encarregado de colocar lampiões a óleo ao longo da pista e permanecer de plantão para acendê-los quando a neblina cobrisse os campos.

 

Nesta altura da narrativa, o pai abria uma gaveta e mostrava as fotos do “Atlântico” no cais de Porto Alegre, sendo abastecido por uma bomba manual e prestes a decolar em sua viagem até o sul do Estado. Em uma das fotos, meu pai aparecia com seu grupo de amigos, posando junto ao piloto. Os homens, de linho branco e panamá e algumas intrépidas senhoras, exibindo seus elegantes chapéus.

 

Ao fundo, o prático, também de paletó e gravata, esperava para conduzir o hidro-avião até o meio do rio. Ele era rebocado por um pequeno barco, alugado no clube de remadores do Guaíba. Quando chegava ao meio do rio, o “Atlântico” ligava seu motor, planava nas águas calmas e alçava vôo, longe dos grandes guindastes alinhados no cais.

 

Eu ouvia aquelas histórias e passava o resto do dia fantasiando aventuras, como as peripécias de meus heróis dos livros da coleção Terramarear. Tempos mais tarde, lendo Antoine de Saint-Exupery sobre a rota do Atlântico Sul, eu me questionava se o pai e seu grupo não inventavam aquelas fábulas apenas para divertir os amigos e fazer as crianças sonharem com as máquinas de voar.

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