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Sonhando com as Máquinas de Voar – II

Por J. A Moraes de Oliveira As estórias que meu pai contava sobre os vôos do “Atlântico” e as peripécias dos pioneiros da aviação …

Por J. A Moraes de Oliveira

As estórias que meu pai contava sobre os vôos do “Atlântico” e as peripécias dos pioneiros da aviação comercial, desde cedo despertaram em mim o secreto desejo de – como se dizia naquele tempo – andar de avião.

O grupo das sextas-feiras se reunia no “Bar Lilliput” para tomar chope e se divertir com as estórias trazidas pelo Kurt Weiss e seus companheiros da “Linha da Lagoa”. Mesmo quando o alemão de bigodes à kaiser deixou o grupo, eles continuaram a recontar estórias das antigas máquinas de voar.

Meus sonhos haviam nascido bem mais cedo, quando eu tinha trÊs ou quatro anos de idade. Em uma manhã clara, na Praça da Matriz, eu segurava a mão do pai, quando uma visão imponente encheu o céu azul e me impregnou para sempre – o Graf Zeppelin sobrevoava Porto Alegre a caminho de Buenos Aires, em sua volta ao redor do mundo.

Muito mais tarde, quando recordava aquele momento mágico, me convenci que meu pai, naquele momento, desejava mais do que tudo estar a bordo do dirigível prateado que deslizava suavemente nos céus azuis de Porto Alegre. Meu pai não conseguiu voar a Buenos Aires naquela maravilha dos céus, mas, alguns anos depois, satisfez um duplo desejo – embarcar em um reluzante DC-3 da Cruzeiro do Sul para assistir Renata Tebaldi cantar Puccini no Teatro Colon. 

Durante a II Guerra, meu pai sintonizava a BBC em nosso Telefunken de 16 válvulas para ouvir o noticiário sobre a Batalha da Grã-Bretanha, quando a RAF revelava ao mundo seus heróis dos céus. Ele descrevia, com muita familiaridade, os Spitfires e Messerschmits que se enfrentavam sobre o Canal da Mancha.

Após a guerra, quando os primeiros Clipper da Pan American abriram a rota do Pacífico, iniciando os vôos intercontinentais, o pai me mostrava na revista Life a foto do Boeing 314 levantando vôo na baía de San Francisco a caminho da Nova Zelândia e da China. E me fazia sonhar, dizendo que um dia eu iria voar ao redor do mundo em aviões maravilhosos como aquele da capa da Life.

Anos depois, na vida adulta, quando, por força de profissão viajava entre um continente e outro, lembrava as premonições e também as frustrações do pai, que nunca conseguira voar no Graf Zeppelin nem no Pacific Clipper da Pan Am.

Eu era um repórter principiante, quando embarquei pela primeira vez no antigo vôo noturno da Varig, rumo ao Rio de Janeiro. O avião estava quase vazio e, na primeira fila, notei uma figura solitária, que reconheci das fotos nos jornais.

Era Ruben Martin Berta, um dos fundadores e o primeiro presidente da Viação Aérea Rio-Grandense. Passei metade do vôo reunindo coragem para abordá-lo e perguntar sobre Otto Ernst Mayer e os outros pioneiros dos tempos do “Atlântico”.

Até planejei dizer que estava incumbido de escrever uma reportagem sobre a Varig e precisava de detalhes sobre sua fundação. Assim eu poderia onfirmar o que meu pai contava, como aquelas estórias das vacas no campo de pouso.

Finalmente, juntei a coragem suficiente, levantei-me e fui até lá, mas o meu grande herói estava dormindo profundamente.

Na noite calma, o moderno jato sussurrava docemente, embalando o sono e os sonhos dos velhos condores.

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