Por J. A. Moraes de Oliveira Teimosamente, o homem de chapéu branco continua na busca de velhas e esquecidas sensações. Os tempos eram outros, mas, vinte anos depois, o cenário quase não mudara – as mesmas mulheres vestidas de preto continuam caminhando silenciosas nas ruas de casas brancas. Nesta parte do mundo, o passado está presente nas pedras, nos monumentos, no destino das pessoas. Ele se sente como um viajante estrangeiro e solitário, navegando na paisagem cor de areia, sob o céu absurdamente azul.
Anda sobre camadas de conchas quebradas, ossadas, armas enferrujadas e madeiras de naufrágios. Vestígios das paixões, amores e pecados de gerações, mas cujo entendimento é negado aos que estão de passagem.
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O homem resolve pernoitar na pequena cidade, que é cercada por dois rios que emprestaram seus nomes a antigos reinos. Da janela da hospedaria, reconhece ao longe as montanhas azuladas dos Pirineus, que tanto o encantaram desde a primeira vez. Lá, em um estreito desfiladeiro, um herói de sua juventude lutou e morreu, enfrentando sozinho as lanças do exército basco.
Ele deixa que seus passos o levem pelas ruas estreitas, até a praça, onde, desde mil anos, se ergue a grande catedral românica. Passa pelo pesado portão de madeira e entra no átrio frio e deserto. Todos os relógios do mundo poderiam parar e não se sentiria diferença naquela redoma de silêncio e pedra.
Num dia distante, ali se reuniu um alegre grupo de jovens, esperando viver mil aventuras e romances. Ele e seus amigos formaram um círculo nas pedras cor-de-ardósia e, dando-se as mãos, fizeram um juramento.
Prometeram se reunir naquele mesmo lugar para escalarem as montanhas azuis, seguindo o caminho dos bretões até o Passo de Roncevalles. Então, no desfiladeiro mítico, acampariam ao redor do fogo e leriam os versos da Canção de Rolando.
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O homem acomodou-se em um degrau de pedra e abriu o caderno com os nomes dos que não conseguiriam cumprir as promessas do passado. O primeiro era Eduardo, o professor de História, que morava longe, mas que sempre perguntava sobre os velhos companheiros. O seguinte era Maximo, com sua cabeleira de poeta e que gostava de recitar poemas de Camões. Depois, o Telmo, que tinha planos de viajar pelo mundo, mas que se aquietara, quando virou funcionário público.
Seu dedo parou no nome de João Carlos, que prometera acompanhá-lo na viagem, mas que não aparecera na hora do embarque. Os outros falavam em reencontros, mas assuntos importantes os empurravam para longe. E ainda havia os acomodados, que estavam esperando a velhice chegar.
Fez a contagem – no início eram nove, mas ele não podia recriminá-los por esquecerem sonhos e promessas. Ele, por exemplo, nem conseguia lembrar o rosto da maioria, e nem sabia onde havia guardado o livro com a Canção de Rolando. Crueldades do tempo, pensou.
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Olhou mais uma vez o desenho das colunas e dos capitéis da catedral. No altar de pedra, passa a mão na efígie do cavaleiro que dorme ao lado da serpente e do urso que sujeita o basilisco sob a pata direita.
O homem desiste de encontrar resposta para seus enigmas. O ar imóvel e silencioso começa a pesar e ele levanta-se para sair. No pórtico, a frase que procura está quase apagada:
“Se quiseres viver aqui, estás submetido às leis dos que tombaram. Vem, mas renuncia ao alimento envenenado do mundo.
Purifica teu coração de injustiças para não experimentar uma segunda morte”.
Na rua ensolarada, procura um bar para beber algo gelado.

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