Por J. A. Moraes A cerração escorregava por entre capões e campos molhados pela chuva. Do céu cinzento, desciam bandos de periquitos disputando os primeiros pinhões de abril, caídos do alto das araucárias.
Percorrendo o desenho serpenteado das taipas, noto aqui e ali, líquens esverdeados entre as pedras rosa-alaranjadas. Em silêncio, os muros de pedras começam a envelhecer, embora ainda passarão muitos anos de chuva, sol e geada, antes de adquirirem a pátina acinzentada das antigas taipas dos tropeiros.
Em uma curva no campo, a surpresa. Um pedaço da taipa havia desmoronado, como se um grande aríete a tivesse golpeado. Caminho entre as “pedras de mato” espalhadas pelo campo, procurando entender o que poderia ter provocado aquele estrago. Mas não encontro resposta.
Na memória me reaparece a figura do velho taipeiro que passara meses erguendo taipas à moda antiga – sem nenhuma gota de cimento. Usa um boné sujo de terra e faz taipas praticando uma artesania quase extinta.
Se chama Eurípedes Amaro.
Ele diz que há 40 anos ganha a vida como taipeiro nos Campos de Cima da Serra e, sem disfarçarçar uma ponta de vaidade, afirma que garante todas as taipas que faz:
“Taipa que eu levanto não cai – fica em pé a vida inteira.”
Faz uma pausa e ressalva:
“- Só tem uma coisa que derruba taipa: uma grande trovoada seca”.
Lembrando seu jeito zombeteiro, começo a rir de mim mesmo, desconfiado de ter sido enganado pelo taipeiro. Mas lembro da recente tempestade que desabou sobre a região, assustando cavalos e pessoas. Os relâmpagos iluminaram o horizonte e a chuvarada foi precedida por uma grande trovoada.
***
Paro o carro diante da pequena casa de janelas brancas e pergunto por Eurípedes Amaro. Mal termino a frase e ele aparece com seu boné empoeirado, enxota os cachorros e diz que sabe a razão de minha visita.
Me faço de desentendido, o velho mostra um sorriso maroto, olha para as nuvens no céu e pergunta, como quem sabe a resposta:
“- Caiu uma taipa na fazenda, não foi? Deve ter sido uma das grandes, pois a trovoada foi coisa séria.”
E confia seu segredo:
” – Quando bate a trovoada, a terra treme e faz tremer as raízes dos pinheiros. É isso que derruba a taipa.”
Me avisa que na segunda-feira estará na fazenda para levantar a taipa caída. E, com aquele ar de convicção que sempre me deixa desconcertado:
“– Eu poderia ir amanhã, mas não se deve começar trabalho em pedra nas sextas-feiras. O serviço não rende e não fica bom”.
***
Na segunda-feira, encontro Eurípedes Amaro pensativo junto à taipa. Quase que advinho o que ele vai dizer:
“- Eu sabia. Foi aquela trovoada da semana passada. E deve ter sido das brabas“.
Nos dias seguintes passo por ali e, disfarçadamente observo o trabalho do taipeiro, que já havia removido uma grande extensão das pedras, de cada lado do vão derrubado.
No chão, centenas de “pedras de mato” arrumadas meticulosamente por forma e tamanho, como peças de um grande quebra-cabeças.
Em uma manhã, dou com o taipeiro de pé, de mãos na cintura, olhando as pedras, como se conversasse com elas.
Me vê, tira o boné e responde a pergunta que não fiz:
” – Vai demorar mais do que eu pensava. As pedras precisam voltar para o lugar de onde sairam, senão vai cair tudo de novo.”
***
Uma semana depois, volto e não encontro Eurípedes Amaro. Mas deixou um recado, avisando que foi levantar outra taipa derrubada pela trovoada, em uma fazenda vizinha.
Dou a volta ao redor da taipa, tocando as pedras com incredulidade. Ela parece que brotou do chão – está exatamente como era antes.
No campo, ao redor, não sobrou nenhuma pedra. Parece que cada uma delas voltou para o mesmo lugar onde estava.
No horizonte dos Campos de Cima da Serra, nuvens douradas prenunciam tempo bom, sem sinal de tempestade.

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