Eu sempre devo, quero e gosto de conversar com alguém. Parece que fazer isso não é um problema quando se escolhe ser jornalista. O título que escolhi para este artigo é do livro que estou lendo no momento, da autora best-seller e terapeuta Lori Gottlieb. O que me faz escrever, no entanto, é uma imagem ilustrada que aparece na capa do livro: um lenço de papel amassado, saído da caixa de lencinhos que os terapeutas têm nos consultórios. Sabe aquele?
Aquele que pode ter ou não as marcas do rímel que borrou enquanto a lágrima caiu. Aquele que guarda mágoas, ressentimentos, revoltas, inconformidades, lutos, e retém também o choro de felicidade. Pode ser por ter superado desafios, engravidado ou conquistado algo que sonhava há anos.
Inúmeras vezes saí da terapia desejando escrever sobre o lenço que me foi estendido. Alguns, guardo comigo na saída da consulta, devem ser as dores mais difíceis de absorver. Com certeza enfiei na bolsa todos os papéis com as lágrimas derrubadas pela morte da minha mãe. E também os lencinhos desmanchados pelo choro incontido de quando sinto que não sou boa o suficiente. Outros eu faço questão de jogar no lixo do consultório, como aquele de quando fui demitida, após ganhar minha primeira filha, que tinha sete meses. Na mesma empresa de Comunicação que me deu flores no dia 8 de março do ano anterior.
A terapia me mostrou que temos muitos papéis: mãe, jornalista, amiga, esposa e mais! Cada lencinho descartado, na bolsa ou no lixo, me fez aceitar que não sou 100% em todos eles. E tudo bem! No dia da demissão, por exemplo, fui só meia mãe. Não dava para estar inteira. Por isso, rejeito mensagens no dia, semana e mês dedicado a nós mulheres com imagens da Mulher Maravilha. Tô fora! Até porque no divã da minha terapeuta senti todas as dores e derramei todas as lágrimas justamente porque sou de carne e osso.
Então, vamos fazer assim, fica combinado que hoje, e em todos os outros dias, você ofereça a escuta para uma mulher, sugira que ‘talvez ela deva conversar com alguém’, pois também deve estar cansada de ser taxada de heroína sendo só uma pessoa comum. Que tem dores e amores e que, de vez em quando, quer só um pouco de cuidado. E no consultório terapêutico, definitivamente, nada é mais simbólico do que o carinho de receber aquela caixa de lenços.
Márcia Dihl é jornalista e repórter de Coletiva.net. Mãe da ginasta Beatriz e do encantador Bento.


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