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Telmo e os Piratas

Por J. A Moraes de Oliveira Era um casarão branco, com oito janelas pintadas de azul, cercado por figueiras, jacarandás e pés de jasmim-manga. …

Por J. A Moraes de Oliveira

Era um casarão branco, com oito janelas pintadas de azul, cercado por figueiras, jacarandás e pés de jasmim-manga. As famílias que subiam vagarosamente a rua General João Telles nas tarde de sábado, paravam

por alguns minutos para admirar o grande casarão, inebriados pelo doce perfume dos pés de jasmim-manga.

Eu gostava muito de visitar o casarão – ali morava meu colega Telmo Segranfredo e sua família. Nas paredes da sala, as fotografias de seus antepassados – famílias inteiras de colonos diante de suas toscas casas de tábuas a pique, que eles mesmos haviam construído no interior de Nova Prata. 

Quase nada ali era novo ou moderno. Os pesados móveis e as louças decoradas com brasões coloridos recordavam uma Itália que havia ficado para trás. Em cada objeto havia a marca da austeridade e de incontáveis anos de trabalho duro.

Quando perguntado sobre as notas que recebia nos boletins mensais no Colégio Rosário, Telmo sorria mansamente e não dizia nada. Mas sabíamos que ele tinha as notas mais altas de todo o ginásio e ganhava inflamados elogios do irmão regente, que deixavam Telmo encabulado e a nós todos, mordidos por uma incômoda inveja juvenil.

Telmo passava os dias inteiros estudando e eu não entendia como ele  achava tempo para ler sua coleção de livros de aventuras. Ele não fazia  parte da turma da Felipe Camarão, nem gostava de espiar as meninas na saída da matinê do Cine Baltimore.

Seu grande prazer eram os romances de piratas, corsários e filibusteiros em aventuras que se passavam em alto mar. Um dia, Telmo me confiou um pequeno segredo – para cada nota dez que conseguia, ganhava de seu pai um novo livro de aventuras.

Depois de três anos de ginásio, sua coleção ocupava um grande baú de madeira. Eu admirava as capas ilustradas e percorria com o dedo o nome nas lombadas dos livros alinhados no baú: Julio Verne, Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, Jack London, Emilio Salgari

E eram justamente esses livros que eu pedia emprestado ao Telmo. Com os braços carregados, eu corria ofegante até em casa. Entrava pelo portão adentro e me aninhava na cadeira espreguiçadeira do pai. Ao lado, na pequena mesa, eu os arrumava em uma pilha bem ordenada, na gostosa expectativa do início das férias de inverno.

E, ao longo dos dias frios e úmidos, Capitão Morgan, Long John Silver, Capitão Nemo e Miguel Strogoff, o Correio do Tzar, tomavam o lugar das brincadeiras na esquina da Felipe Camarão e das matinês dominicais do Cine Baltimore. Meus companheiros da rua não gostavam muito de ler e alguns nem tinham livros em casa. Mesmo minha irmã e meus pais não entendiam muito bem aquela paixão pela leitura, enquanto os meus amigos brincavam na rua, assoviando e rindo o tempo todo.

Por muitas horas, eu escapava para o encantado mundo de mistérios e de aventuras. Quando chegava a hora de jantar, minha mãe precisava chamar por vezes seguidas, para me trazer de volta de distantes ilhas desertas, justamente quando estava prestes a descobrir tesouros escondidos no Reino da Barataria.

Quando, ao final das férias, a pilha de livros diminuía, eu ficava esperando o próximo boletim no ginásio. Mesmo lamentando minhas notas baixas, eu sempre podia contar com as notas dez do Telmo. Elas eram a promessa de novas e empolgantes leituras.

O Telmo e eu tínhamos uma brincadeira cruel para provocar os meninos da Felipe Camarão, que diziam que ler livros era pura perda de tempo. Chegávamos junto a um pequeno grupo, comentando as aventuras de Jean Lafitte ou do sanguinário Barbarossa. Não falhava nunca – logo se formava uma roda, todos ansiosos para saber o final das estórias. Naquele momento, a qualquer pretexto, interrompíamos a narrativa e saíamos em disparada, para frustração dos meninos reunidos na esquina.

Quando minhas notas começaram a melhorar, levei orgulhoso meu boletim ao pai e pedi um livro de aventuras de presente. Quando encontrei o pacote sobre minha cama, rasguei com sofreguidão o papel colorido e mal consegui falar – não era um, mas dois livros de Edgar Wallace, estalando de novos. Logo pensei que certamente ninguém na escola havia lido aqueles livros – talvez nem mesmo o Telmo.

Quando lhe mostrei os livros, ele ficou entusiasmado: “Eu nunca li um romance policial, podes me emprestar um deles?”. Tentei não mostrar hesitação ao entregar-lhe o exemplar, ainda fechado, de “Os Quatro Homens Justos”.

Semanas depois, ao empurrar o portão de ferro, do casarão da João Telles, me deparei com dois caminhões com grandes letreiros “Mudanças Camiza” em vermelho nas laterais. Telmo me esperava com o sorriso tranqüilo de sempre. Sentamos no banco de pedra do jardim e antes que eu perguntasse alguma coisa, foi contando que ele e sua família estavam de mudança para Santa Catarina.

Procurei por sinais de tristeza no rosto do amigo, mas Telmo parecia estar se divertindo com a perspectiva de mudança para uma nova cidade.

Ficamos por algum tempo observando os homens gordos de boina e botinas carregando os móveis antigos para dentro dos caminhões. E logo trouxeram do sótão o baú de madeira que continha a coleção dos livros de piratas.

Então Telmo me chamou até a casa e mostrou uma grande pilha de livros arrumados a um canto. Com um sorriso triste, disse o que eu já esperava: “Estes, que ainda não lestes, são o meu presente de despedida”.

Surpreso, pensei estar sendo vítima de alguma brincadeira. Mas Telmo estava falando a sério e continuou, dizendo que o caminhão da “Camiza” deixaria os livros em minha casa, na Vasco da Gama, ainda naquela tarde.

Muito sem jeito, dei um abraço no Telmo e corri para avisar a mãe e saber se poderia guardar os livros em meu quarto. Mas minha irmã logo protestou, dizendo que os livros iriam tirar o lugar de sua coleção de bonecas. Ante meu desapontamento, minha mãe interveio e disse que o melhor mesmo seria o quartinho dos fundos, onde já estavam guardados os meus gibis de estimação.

Passei a tarde improvisando uma prateleira de caixas vazias de madeira para acomodar os livros que estavam por chegar. O caminhão com as letras vermelhas buzinou à frente da casa e os homens de boina e botinas descarregaram as caixas com os livros. À medida que eles chegavam, eu torcia as mãos em nervosa expectativa, mal podendo esperar a hora de folhear suas páginas e conhecer as estórias que me aguardavam. Telmo cumprira sua promessa – aqueles eram os melhores romances de piratas de sua coleção.

Quando abri a primeira caixa, lá estava o meu “Os Quatro Homens Justos” que, com indisfarçada má vontade, eu havia emprestado ao Telmo.

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