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Tio Alvinho

Por J. A. Moraes de Oliveira Suas peripécias lembravam as aventuras dos meus heróis nas revistas em quadrinhos. Num dia, o Tio Alvinho trocava …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Suas peripécias lembravam as aventuras dos meus heróis nas revistas em quadrinhos. Num dia, o Tio Alvinho trocava tiros com ladrões de gado, no outro, discutia com o delegado de Tapes. E estava sempre às turras com os plantadores de arroz, que usavam arame farpado nas cercas. Dizia que aquilo era uma maldade com o gado e as derrubava com o laço, montado em seu cavalo zaino. Mas, para surpresa geral, muitas vezes mostrava seu lado terno, colhendo flores do campo para minha mãe, quando chegávamos para as férias de verão.

O Tio Alvinho vestia bombachas negras, usava uma bela adaga de prata atravessada na cinta e um largo sorriso de dentes brancos, escondidos por fartos bigodes. Tinha sempre pronto um dito campeiro para qualquer situação. Quando um irmão mais moço titubeou em enfrentar os ladrões de cavalos que invadiram a fazenda, largou na hora:

Ih, preteou o olho da gateada.

Na volta do enfrentamento, depois de expulsar os invasores atirando para o alto, apeou do cavalo e sentenciou:

 Tá pelada a coruja.

E tirando o .38 niquelado para limpar, completou com um sorriso maroto:

Tiro dado, bugio deitado.

Olhei para minha mãe em busca de ajuda, mas ela aumentou a minha perplexidade, arrematando:

“Meu filho, não queira entender, são cosas de bandoneón.

Tio Alvinho costumava alardear que ainda não havia nascido o cavalo que o derrubaria dos arreios. Gostava de domar e montar os chucros mais difíceis e, aos domingos à tarde, avisava a família que ia até as Dores. Recusava a nova denominação, Vila dos Vasconcelos, e continuava a usar a antiga, Dores de Camaquã. Desfilava garboso em seu zaino quase preto, enfeitado com pelegos vermelhos e arreios arrematados de prata.

Amarrava o cavalo à frente do bolicho do “seu” Aparício e ficava horas na roda de mate, mais contando do que ouvindo estórias e as muitas lendas que povoavam a campanha gaúcha.

Os mais velhos rememoravam lutas e escaramuças sangrentas em antigas revoluções. As datas ninguém lembrava, mas os locais das façanhas eram sempre descritos com precisão de detalhes, como os nomes dos que foram abatidos por lança ou por tiro de pederneira.

O Chico, o meu tio mais moço, acompanhava o Tio Alvinho nas rodas do bolicho nas Dores. Os peões falavam que era para ajudar o velho domador a achar o caminho de volta na noite escura, mas minha mãe, sensível aos gestos de carinho do irmão, tinha opinião própria:

“Não é nada disso, aquele cavalo zaino é capaz de achar o rumo de casa de olhos fechados em noite de temporal. Teu tio usa o Chico como testemunha de seus causos, para não o chamarem de balaquero.

Eu gostava do arranjo, pois, no dia seguinte, abordava o Tio Chico antes de ele sair para o campo, para saber qual a nova estória que ele ouvira no bolicho. Na maior parte das vezes, eram as mesmas: pescarias na lagoa, uma caçada de gato-do-mato no Cerro Pelado, contrabando de gado na fronteira ou entreveros nas coxilhas de Camaquã.

Muitas vezes, o Tio Chico nem esperava a pergunta e me provocava, ao mesmo tempo em que enrolava um cigarro de palha na palma da mão: “Ontem, teve um causo novo – te conto mais tarde”. Nesses dias, eu sentava em um tronco da mangueira, olhando o campo e esperava impaciente o fim da tarde, para ouvir a estória prometida.

Quase sempre valia a pena esperar. Quando voltavam do campo, o Tio Chico me chamava e repetia o que ouvira do Tio Alvinho, para os tios e os peões, reunidos no galpão dos arreios. Muitas das narrativas eram por demais fantasiosas e outras eu não conseguia saber o final, pois, passado algum tempo, eu ouvia a mãe me chamar para o inevitável banho de bacia e balde.

Mas alguns dos causos eu guardei por anos e ainda lembro dos detalhes – a roda atenta, a cuia passando de mão em mão, o cheiro de costela de ovelha assando debaixo da figueira.

Uma das estórias de mais sucesso era a da primeira viagem do Tio Alvinho a Porto Alegre.

O avô Patrício havia vendido uma centena de cabeças de gado e o tio fora incumbido de depositar uma grande soma de dinheiro no Banco da Província.

Devidamente alertado sobre os malandros e vigaristas que abordavam os viajantes na estação rodoviária da Capital, Tio Alvinho embarcou no ônibus verde-e-branco da Garcia, com o cinturão empanturrado de dinheiro. Por precaução, enrolou o pala no pescoço e escondeu nele o seu .38 niquelado de estimação.

Quando desembarcou na rodoviária de Porto Alegre, de bombachas pretas,

chapelão e pala no pescoço, acendeu seu cigarro de palha de milho e consultou o papelucho que ensinava como chegar no Banco da Província.

Não passou nem um minuto e foi abordado por um homem bem falante e bem vestido, que perguntou se ele tinha fogo.

Tio Alvinho olhou desconfiado para o intruso, lembrou das advertências que ouvira e se afastou alguns passos, retrucando educadamente que não tinha fogo para dar. Mas o estranho insistiu, apontando para o palheiro aceso. Com gestos pausados, meu tio retirou o .38 niquelado das dobras do pala, engatilhou-o, enfiou o cigarro no cano e disse, olhando dentro dos olhos do estranho:

“Aqui está o meu fogo, o amigo pode se servir à vontade…”

A roda inteira caiu na gargalhada e foi quando ouvi minha mãe avisando que o banho estava pronto. Tentei esperar pelo fim da narrativa, mas como as risadas não cessavam, caminhei até a casa para tomar meu banho de bacia e balde.

E até hoje não sei como terminou a aventura do Tio Alvinho na rodoviária de Porto Alegre.

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