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Tu achas que eu estou muito doido?

Por Antonio de Oliveira O meu amigo estava terminando o ano irado. A alegria (mútua) do reencontro depois de tanto tempo logo se transformou …

Por Antonio de Oliveira

O meu amigo estava terminando o ano irado. A alegria (mútua) do reencontro depois de tanto tempo logo se transformou em uma saraivada de críticas ao jornalismo de bunda na cadeira, olho na internet e ouvido no telefone, que é feito hoje; ao que se vê nas redações (embora eu não entre numa há anos) e aos caminhos que estão tomando os relacionamentos das faculdades de comunicação social com as grandes empresas logo após o fim da exigência do diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista.

Com pavor nos olhos, ele denuncia que um curso de jornalismo fez um convênio com uma empresa de comunicação, que o modernizou a tal ponto de ter à disposição dos alunos várias ilhas de produção e edição de TV, de rádio, dezenas de máquinas fotográficas. Sua perplexidade e indignação chegam ao auge quando ele informa que isto aconteceu dias depois da extinção da exigência do diploma.

Para o meu amigo, as coisas funcionam como nos tempos da máfia, que os acontecimentos têm ligações, que acontecem como pagamento por atitudes e posições de pessoas que colaboram com as grandes empresas. E fala da promiscuidade que domina as relações entre alguns jornalistas, suas entidades de representação e as grandes empresas, que fazem estes pequenos favores para formar o profissional adequado, que não as perturbem quando estiverem em atividade.

Promiscuidade foi a palavra mais amena utilizada também por ele ao falar sobre as relações entre os jornalistas especializados, acima de tudo nas áreas de economia e política. Verberou contra a montagem de denúncias que acabam virando manchetes e assunto nacional pela atuação coordenada do Partido da Imprensa Golpista, o PIG. Cita vários exemplos de denúncias que acabaram não dando em nada, simplesmente porque inexistiam. Foram inventadas (mas será mesmo?). Isto sem falar que nas notícias policiais acabaram com a opinião da vítima. Ela (a vítima) não fala mais. É como se não existisse. Só fala a “otoridade”, marca com um forte acento no `ô`).

Papo pra lá e pra cá, ele tenta dizer que assessor de imprensa não é jornalista, mas como eu faço que não ouço, ele toma outro rumo. Mesmo assim, eu quase perguntei a ele se são jornalistas os blogueiros que ganham um anúncio da Prefeitura e passam a defendê-la e a fazer campanha para a reeleição do prefeito. Ou os que têm como marca maior mentir e ofender pessoas ou instituições só porque são de outra tendência ideológica ou porque gostam de enfrentar os grandes ricaços que eles (estes blogueiros) sempre defendem.

Mas o meu amigo estava impossível e, a certa altura, em meio a um amontoado de críticas, fez uma pergunta à queima roupa: “Tu achas que eu estou muito doido?”. Depois de uma boa risada, disse-lhe que não, que eu até compartilhava com a maioria das suas ideias e teses.

Para justificar sua total descrença no jornalismo que é feito hoje, ele contou que conheceu uma pessoa que fez um trabalho de conclusão em jornalismo e ouviu profissionais de três gerações sobre quem lhes havia inspirado para seguir a profissão. Seu mentor intelectual. E ficou abismado quando soube que um influente jornalista da época atual entrevistado tinha como seu grande ídolo, jornalista exemplar, que ele tentava seguir, o Pedro Bial. Diante da minha cara de pavor, ele repetiu quase aos berros. O Pedro Bial!!!!!!! Já pensou!!!!!!! E o cara é linha de frente, formador de Opinião!!!!!!!!!!!! E adora o Pedro Bial!!!!!! Eu acrescentei que nas últimas décadas só sabia de duas grandes realizações do Pedro Bial: animador de BBB e ter chamado o Roberto Marinho de companheiro.

Seu inconformismo seguiu com a apresentação de um jornal (de Natal) que acumulava duas edições. Olha só, vê que porcaria. Como são duas edições conjuntas, eles colocaram num jornal só todas as bobagens que eles fazem, vários caderninhos de porcarias daqui e dali e escancararam toda a sua incompetência num monte de pequenos encartes de m…

Como achei que ele já estava pegando pesado demais, desejei um Feliz Natal e um próximo Ano Novo, com menos azedume. Fui saindo e já meio de longe ele me gritou que a única coisa que presta que a humanidade fez nos últimos tempos é a invenção do Viagra. E era por isso que, já numa certa idade, estava saindo de mais uma relação para outra com total sucesso.

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