Por J. A. Moraes de Oliveira Certas cidades costumam oferecer enigmas que passam despercebidos ao viajante desatento. Quando deixamos os preconceitos na bagagem e olhamos além das superfícies de cartão postal, surgem insuspeitadas riquezas humanas e culturais, normalmente ocultas ao passante apressado.
Alguém já escreveu que Paris se comporta como uma velha dama recatada, que não exibe seus verdadeiros encantos ao primeiro olhar. Amsterdam é outra senhora de recato, com seus ocultos deslumbramentos e insuspeitados enigmas.
Sua arquitetura medieval convive em harmonia com a modernidade européia. Mas, nas esquinas da Cidade Velha, permanece a sensação que, a qualquer momento, vamos esbarrar com um grupo de burgueses flamengos do século XVI, assustados com os ônibus de turismo e as multidões ruidosas, diante do venerável Rijksmuseum.
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Minha receita pessoal de desvendar encantos de cidades enigmáticas como Amsterdam é simples: deixar os estranhamentos na mala e acompanhar o ritmo da cidade e seus moradores. Um bom começo é comer onde eles comem, então escolho um dos pequenos restaurantes nas estreitas ruas ao longo do rio Amstel.
Chego cedo, pois os holandeses são adeptos convictos da “slow food”, o que subtrai algumas horas da agenda do turista com um programa a cumprir. Será um tempo bem empregado – perde-se o passeio pelos canais em troca da garimpagem de pequenos encantos e maravilhas.
Me proponho uma refeição ritual – Rijsttafel, o arroz branco e perfumado da Indonésia, acompanhado de grande variedade de temperos exóticos, herança dos tempos da ocupação holandesa nas Indias Ocidentais. Para entrar no clima, uma dose de Aquavit, o destilado da Noruega, que em Amsterdam ganha um significado próprio, quando alternado com goles de Oud Bruin, a cerveja escura e amarga da Grolsch, uma cervejaria que existe desde 1615, embora menos conhecida do que a famosa Heineken.
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Procuro fazer como os ocupantes das demais mesas – deixo o tempo escoar. Afinal, o restaurante existe desde 1890 e ninguém parece ter pressa de voltar para o trabalho ou para casa. Como tenho a sorte de sentar junto à janela, afasto a cortina de renda de bilro e espio o desfile de pessoas na rua estreita.
De tempos em tempos, o barman – sem uma palavra para não interromper minhas divagações – vem reabastecer o copo de Aquavit.
Esta “água da vida” ajuda a compreender melhor os povos do Norte. Lendas dizem que este destilado de batatas, com ervas e caramelo, era usado como moeda de troca dos navegantes, em busca de especiarias nas Índias Ocidentais. Depois de meses nos mares, os barris não-vendidos voltavam com uma suavidade incomum que conquistou os nórdicos.
Consta que, desde então, a bebida é envelhecida em tonéis de carvalho pelo mesmo tempo que durava a viagem dos veleiros, até o outro lado do mundo.
Deve ser marketing, mas gosto tanto da estória que sinto em meu Aquavit aromas que sabem a maresia e aos ventos do Pacífico.
Chega o Rijstaffel, com o desfile de tijelas de molhos e temperos com cores e perfumes inescrutáveis. Depois, a grande travessa de um arroz branquíssimo e fumegante.
Com a ajuda de mais uma caneca de Oud Bruin, começo a exploração dos pratos. Vejo mangas, anchovas, pepinos em conserva, hortelã picada, sementes de cominho, linhaça e alfavaca. Aquilo deve ser aniz estrelado, ao lado do gengibre e do coentro. Ainda há açafrão, pasta de tamarindo, camarão moído e vagens inteiras, que parecem ser baunilha.
Examino os molhos, mas desisto e peço ajuda ao garção, que me diz que se deve alternar temperos doces e apimentados, misturados com uma generosa porção de arroz. A primeira tentativa enche meu paladar com sutilezas – uma mistura de pimentas vermelhas marinadas, raspas de côco e pedaços de camarão frito. Com um punhado de arroz, é uma viagem instantânea aos Mares do Sul. E desce suave, com goles de cerveja amarga e de Aquavit.
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O tempo passa vagarosamente, as tijelas de especiarias estão quase vazias e o restaurante também. Saio à rua, me misturando aos transeuntes, que caminham pelas margens do rio. Nuvens baixas escondem o sol e a luz lavada de outono brilha no barroco dos prédios, ao longo do Amstel.
Depois de uma caminhada de quase uma hora, procuro me localizar e descubro que estou a menos de 500 metros de dois incomparáveis museus de arte.
É preciso tomar uma decisão. Qual seria o melhor final para um perfeito dia em Amsterdam: as cores luminosas de Van Gogh ou as misteriosas luzes nórdicas de Rembrandt?

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