Por Paulo Brossard*
Eu estava no Rio de Janeiro, participando de interessante fórum de estudos acerca de Rumos do Brasil Contemporâneo, quando um fato de particular gravidade ocorreu pelas bandas de Sarandi, envolvendo servidores da RBS, que lá se encontravam no exercício de sua atividade profissional. “Manifestantes ligados aos Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e dos Pequenos Agricultores (MPA) impediram ontem, de forma violenta, o trabalho de uma equipe da RBS TV, em Sarandi, no norte do Estado. Uma caminhonete Parati e uma câmera – além de outros equipamentos, como iluminação, tripé, baterias e fitas – foram queimadas sobre o asfalto do Km 140 da rodovia Porto Alegre-Iraí (BR-386). O ato foi um dos mais agressivos em um dia de protestos pelo Estado, na véspera da chegada do presidente Lula”. A golpes de foice, os vidros do veículo foram quebrados e o carro incendiado por pessoas mascaradas, conforme a descrição das vítimas. Estes os fatos.
Embora se venha registrando crescente virulência nas manifestações de invasores de propriedades rurais, por eles ironicamente denominadas “ocupações pacíficas”, quando se trata de esbulho puro, ainda não se vira coisa semelhante ao ocorrido em Sarandi. Cada vez com mais desembaraço a entidade em causa vem revelando seu plano, aliás, desenvolvido com precisão matemática, plano que pouco tem a ver com suas reivindicações formais; a meu juízo, o objetivo real é a tomada do poder. Não faz muito, o chefe do movimento, falando em Piratini, em reunião pública, afirmava que o exército (sic) do MST contava com 23 milhões de unidades, enquanto os seus inimigos (sic) ruralistas eram 27 mil; essa relação indicava de antemão a quem pertenceria a vitória nessa guerra, e como se não bastasse, concluiu que o MST não descansaria enquanto não eliminado o “inimigo”.
O recurso à violência foi abundantemente empregado nos países onde predominou o totalitarismo em boa parte do século 20, a conseqüente geração do medo também foi instrumento eficaz, tanto para a conquista do poder como para sua conservação; na Itália foi assim, foi assim na Alemanha nazista, no império soviético não foi diferente, sem falar em Espanha e Portugal. Aqui, tudo indica a fonte ideológica dos movimentos em curso; a cautela inicial foi cedendo espaço à arrogância atual, de resto, crescente.
Depois de lesões brutais aos direitos humanos em grande parte do continente europeu, esboroou-se o totalitarismo, mas o seu espírito não morreu. Por incrível que possa parecer, ele migrou e se instalou entre nós. Anuncia-se a data em que haverá invasões de sítios trabalhados e habitados – abril vermelho, outubro vermelho e elas são realizadas e seu êxito festejado. Agora foi incorporado o incêndio no elenco das violências cometidas. Foi mais um passo na prática da dominação em fatias.
Pode ser que esteja enganado e queira Deus que esteja, mas vejo com clareza a natureza dos processos empregados e sua finalidade. Já vi coisa semelhante e vi seus efeitos implacáveis. E quando os males foram percebidos era tarde, a loucura totalitária já triunfara.
Ninguém pode dizer que nada aconteceu em Sarandi, nem que o sucedido não tinha importância, e menos ainda que não interessa a nós que lá não estávamos, como se nós também não fôssemos vítimas da violência.
* Paulo Brossard é jurista, ministro aposentado do STF. O artigo foi publicado originalmente no jornal Zero Hora, em 21/03/05.

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