Por Rafael Bordin Schuch
O clássico “Doze Homens e uma Sentença” (12 Angry Men), 1957, retrata de forma perfeita o peso dos valores, do diálogo e da necessidade de alta abstração na elaboração da decisão final por um júri. Indicado ao Oscar de melhor filme, diretor e roteiro adaptado, esta obra é estrelada por Henry Fonda e dirigida por Sidney Lumet (Um dia de cão, Rede de Intrigas). Também integram o elenco Martin Balsam (Sindicato de ladrões e Psicose), que é o presidente do júri, preocupado em organizar os trabalhos; Lee J. Cobb (Sindicato de ladrões), um empresário irritado, sempre falando alto com os outros jurados e emocionalmente abalado devido ao desprezo do próprio filho; e Jack Warden (Todos os homens do presidente), um vendedor e fã de beisebol extremamente superficial e indiferente à reunião.
O filme retrata o processo de decisão de um júri diante do caso de um jovem porto-riquenho acusado de ter matado o próprio pai. Doze jurados se reúnem para decidir a sentença, com a orientação de que o réu deve ser considerado inocente até que se prove o contrário. Onze dos jurados, cada um com sua convicção, estão prontos para considerar o rapaz culpado e então, sentenciar o acusado à morte sem ao menos analisarem, votando pela condenação. Mas um único homem, o jurado número 8, sr. Davis (Fonda), não tem pressa em ir para casa e está disposto a provar ao restante do júri que o garoto é inocente, acreditando na inocência do réu.
Enquanto o sr. Davis tenta convencer os outros a repensarem a sentença e traços de personalidade de cada um dos jurados vão sendo revelados, o filme mostra como os sentimentos individuais interferem na decisão de cada um. A partir da discussão entre os jurados, dos momentos de clara divergência e dos argumentos usados por cada um durante as discussões, o filme nos faz refletir sobre como diversas variáveis influenciam no processo de decisão que um grupo de pessoas deve tomar em conjunto sobre a vida de um indivíduo.
Sendo coincidentemente a estréia de Lumet na carreira de diretor, o filme usa apenas uma locação, a sala onde os jurados decidem o destino do réu. Há apenas dois outros cenários mostrados, no início a corte de julgamentos e, na cena final, o personagem de Henry Fonda saindo do tribunal. Um fato curioso inexistente nos filmes atuais e que mostra a genialidade de Sidney Lumet tanto na idéia de inovação quanto na escolha de atores de qualidade e refinamento profissional que correspondam à expectativa do diretor, é de que a primeira cena que mostra o júri na sala anexa começa no minuto 3, sendo filmada ininterruptamente até o minuto 10, quando é cortada para outra câmera. Para marcar a passagem do tempo o diretor utiliza o recurso do clima: no início das discussões o tempo está limpo, com o desenrolar do filme percebe-se chuva, indicando uma mudança de clima tanto fora quanto dentro da sala.
Na primeira votação, apenas um dos jurados vota pela inocência do garoto, não porque acredite nela, mas por falta de provas que possam incriminá-lo. Ao demonstrar a inconsistência dos relatos das testemunhas e das provas, esse jurado vai convencendo os outros de que o garoto talvez seja inocente. O filme mostra que a convicção inicial dos jurados ao julgar o garoto era baseada em experiências pessoais e preconceitos dos próprios jurados. Estes, inconscientemente, a partir da imagem do réu, transformaram-na para que se enquadrasse nos seus esquemas e narrativas preestabelecidos de sociedade, levando em conta não os fatos, mas sim, os tipos sociais criados pela sociedade.
Na sala do júri os personagens são identificados pelo número em que estão sentados em volta da mesa e apenas dois têm seu nome revelado, o sr. Davis (Fonda) e sr. McCardle (Sweeney). Dos doze jurados, dez são identificados pelo trabalho ou profissão que exercem: o jurado número 1, presidente do júri e treinador de futebol em escola de ensino médio, o 2 é bancário, o 3 tem um serviço de mensagens, o 4 é corretor da bolsa de valores, o 5 é pintor, o 7 é vendedor, o 8 é arquiteto, o 10 é proprietário de uma garagem, o 11 é relojoeiro e o 12 é publicitário.
Os jurados são avisados pelo juiz que se houver dúvida razoável sobre a culpa do acusado devem entregar o veredicto de inocente, caso contrário, em sã consciência, devem declarar o acusado culpado. Mas a conclusão deve ser unânime, como é no caso do direito americano, mostrando com isso que nenhum jurado teve dúvida quanto ao ocorrido. No caso de julgarem culpado o tribunal não considera a hipótese de perdão, sendo a sentença de morte compulsória neste caso. O motivo de que a opinião deve ser a mesma de todos é para que não haja dúvida em relação ao parecer, assim, o voto de um membro que tenha dúvida da culpa equivale ao voto dos outros 11 e nada é decidido até que todos votem pelo mesmo veredicto, mostrando que o que interessa é se algum jurado carrega uma dúvida ou não.
Acredito que, quando a decisão é unânime, como no júri norte-americano, a decisão é mais justa, pois todos concordam e, pelo menos teoricamente, nenhum dos jurados duvida sobre a pena a ser tomada, enquanto no júri brasileiro, mesmo com algum dos jurados tendo dúvida, a maioria vence. O filme se baseia na idéia de que mesmo quando uma pessoa votou contra, não existe veredicto. Não é que alguém é contra a maioria, mas isso significa que alguém tem dúvida, e se ela existe, e sendo razoável, não há crime.
Doze homens e uma sentença explica de forma sofisticada como funciona a cabeça de um júri composto por 12 cidadãos que irão absolver ou condenar um indivíduo para a morte e ilustra bem a atuação de um júri e a sua importância na sociedade. Deve ser visto por todos interessados na Justiça.

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