Por J. A. Moraes de Oliveira Ele era baixinho, mas falava grosso como se tivesse dois metros de altura. Tinha pavio curto e um desassombro que assustava os desavisados. Usava fartos bigodes negros, montava a cavalo como poucos e sabia assar uma paleta de cordeiro como ninguém. E, de uma hora para a outra, se tornou a pessoa mais importante na Vila Vasconcelos.
Seu nome era Ermenegildo Lima e, ao que se comentava, herdara todos os bens do falecido capitão Casildo Flores.
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Naqueles tempos, herança não era uma questão pacífica, que se resolvia com bons modos e afabilidades. Dependendo da extensão da terra ou do tamanho do rebanho, as disputas por heranças degeneravam em confrontos e mal-querenças que duravam a vida inteira. Todo morador da vila conhecia pelo menos um caso lastimoso, onde irmãos de sangue trocaram desaforos ou se tirotearam por causa de um eito de terra ou uma ponta de gado.
Por essas e outras, quando o homem pequeno de fartos bigodes negros atravessou a praça arrastando as esporas e entrou sem bater na sala do juiz de paz, a vila parou de respirar. As mulheres nas janelas se benziam e os homens na porta do bolicho do Zeca Tordilho especulavam pelo pior.
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Mal o dia havia despontado, quando o capataz Dominguez procurou Fermino das Dores na casa grande da fazenda para contar das novidades. O caso parecia feio, disse o velho, pois sabia que a tropilha do falecido capitão se misturara com a cavalhada da fazenda. E, o pior de tudo, como os garanhões nunca haviam sido domados nem marcados – não havia quem pudesse identificá-los.
Como Fermino nada disse, Dominguez despejou o resto do balde.
Parecia que as terras nos costados da lagoa, ganhas pelo capitão Casildo na revolução, não figuravam em nenhum papel ou registro.
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Quando Dominguez voltou para os galpões, Fermino preparou um palheiro com vagareza, mas não o acendeu. Ainda não sabia como enfrentar aquela situação, mas não queria ficar ensimesmado com o tal de Ermenegildo Lima. Conhecia sua fama de enfezado e tinha certeza que não passariam muitos dias, antes que o homem aparecesse na fazenda para indagar de suas posses. Mas havia algo mais que o estava incomodando. Mesmo antes do velho Dominguez abrir a boca, Fermino sabia o que ele ia dizer.
E lia as palavras antes delas serem ditas. Isso já havia acontecido antes, mas agora era quase todos os dias. Estaria ele aprendendo a ler pensamentos?
Fermino sacudiu a cabeça e se concentrou no problema que tinha pela frente. Mesmo que Ermenegildo Lima não soubesse das terras da lagoa, Fermino sabia que, mais cedo ou tarde, este enleio acabaria em seu colo.
Para não ser pego no socotroco despachou um homem de confiança até a vila, para ver como as coisas estavam paradas. Escolheu um peão que era meio índio, o Argemiro, que parecia mortiço, mas era bom de ouvido e ruim de falação. Recomendou que cortasse caminho pelo banhado para não dar nas vistas. E se quedou quieto, esperando pelas novidades.
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Já era noite quando Argemiro chegou, o alazão era um cansaço só. Mas o peão não tinha muito para contar. O que ouvira era que, depois de ter com o juiz de paz, Ermenegildo Lima simplesmente montara a cavalo e saíra em disparada, sem olhar para os lados nem falar com ninguém.
Fermino despachou o peão e andou devagar até a frente da casa. Um vento de outono abriu as nuvens e a luz da lua clareou os campos. Era a lua crescente, que seu velho pai chamava de “lua de maomé”, pois ela lembrava a cimitarra dos conquistadores mouros.
Olhou para longe, pros altos do Cerro Pelado, onde ficava o Cemitério das Acácias. Mesmo sob a luz fraca da lua, ele teve a impressão que conseguia avistar o muro branco do cemitério onde Casildo Flores estava enterrado.
“- Mais uma assombração”, pensou. Ergueu os ombros e voltou para dentro, sabendo que naquela noite, não conseguiria dormir.

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