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Um movimento contra a vida

Por Antonio de Oliveira As empresas de transporte de cargas por caminhões do Brasil não estão nem ai para a defesa da vida dos …

Por Antonio de Oliveira

As empresas de transporte de cargas por caminhões do Brasil não estão nem ai para a defesa da vida dos seus empregados. Querem é botá-los a correr cada vez mais pelas estradas esburacadas do País, batendo recordes de entregas a cada dia. E junto vão batendo também o recorde do número de acidentes e mortes nas estradas.

Pena que alguns caminhoneiros tenham entrado nesta dos patrões e estejam trabalhando contra as suas próprias vidas. Defendendo o uso do rebite e de jornadas diárias estafantes que já não conseguem cumprir.

Quando o Estado faz alguma coisa certa para eles, eles não enxergam.

Estão doentes e com a vista perturbada pelos remédios que tomam para vencer, diariamente, percursos desumanos.

Demorei um pouco para compreender, mas logo que li os primeiros editoriais em defesa da abertura de diálogo e o crescimento da cobertura, com aplausos ao movimento patronal pela Globo e suas afiliadas, entendi tudo. As grandes transportadoras deixam seus caminhões bem guardados dentro dos seus enormes estacionamentos e vão para as ruas depredar, botar fogo em pneus e queimar os caminhões daqueles verdadeiros profissionais, que dependem do seu trabalho para sobreviver.

Quando guri, lá pelos 17 anos, fiz uma viagem de caminhão com um amigo um pouco mais velho, levando um caminhão cheio de azulejos, de Imbituba (SC) para São Paulo. Pois o meu amigo tocou quase direto, só parou na entrada de São Paulo, quando estava anoitecendo, para dormirmos, e às 4 da madrugada ele já me acordou para completarmos o trajeto.

Fiquei impressionado com a coragem dele, que pegou um ajudante completamente desconhecido na entrada da cidade para que nos guiasse até o edifício onde o dono da cerâmica tinha um apartamento de andar inteiro, no centro de São Paulo. Lá, deixamos as encomendas particulares do chefe e fomos entregar a mercadoria. E voltamos no mesmo dia, com o caminhão vazio até Curitiba, onde pegamos carga para Porto Alegre na volta.

O que está acontecendo no País é um movimento, uma paralisação, um bloqueio, uma greve contra a vida. Em favor do enriquecimento dos covardes patrões dos caminhoneiros que cortam o Brasil de ponta a ponta com sua coragem. Eles estão cegos pelos rebites, bloqueados pelo cansaço, com a mente obnubilada pelo trabalho excessivo. Já não entendem nada. Nem que o descanso no meio do caminho é algo bom, saudável, humano e necessário para que continuem mais tempo nas estradas e na vida com os seus familiares.

Estão prontos para dar a vida por uma causa que não é, verdadeiramente, a deles, mas sim de quem os explora e exige jornadas de trabalho impossíveis de serem realizadas com dignidade.

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