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Um Visitante do Passado

Por J. A. Moraes de Oliveira Não agradava ao professor de Salamanca receber visitas depois que o sol se punha. Era a sua hora …

Por J. A. Moraes de Oliveira

Não agradava ao professor de Salamanca receber visitas depois que o sol se punha. Era a sua hora preferida de mergulhar nos livros que cobriam em completa desordem a mesa e que avançavam sobre o sofá e cadeiras. O tempo se esgotava e ele sentia a pressão para concluir a sempre adiada tese sobre teologia e ritos medievais.

Ao pressentir o vento frio descendo das montanhas e varrendo as ruas desertas da pequena cidade, acendeu a lareira e esticou os pés junto ao fogo.

Tentou retomar a leitura, mas alguma coisa o estava incomodando. Largou o livro e desceu a escada de madeira, fazendo os degraus ranger sob seus passos pesados.

“Preciso emagrecer”, pensou. Mas, como sempre, cumpriu o ritual de preparar uma grande caneca de chocolate quente e retirar da estante a lata onde guardava os biscoitos amanteigados. 

Estava de volta a sua mesa quando ouviu a campainha da porta de entrada que dava para a rua Schüller. Lembrou-se então daquilo que o estava incomodando.

Um visitante noturno havia chegado.

***

Ele fora despertado pelo telefonema de um amigo de muitos anos, o padre Theodoro. Percebera o tom de urgência e de ansiedade na voz do amigo, mas não deu importância, pois conhecia bem suas bizarrices.

Recordou a época em que os dois estudavam no Instituto de Teologia em Roma. Eram os seminaristas com as melhores notas, mas também os que davam mais trabalho ao seus superiores. Depois de muita insistência, eles haviam recebido uma licença especial, para pesquisar livros e documentos raros sobre a Igreja da Idade Média.

Por semanas, vagaram por salas secretas, examinando quantidades incríveis de documentos, cujo significado nem sempre entendiam, mas se deslumbrando à descoberta de cada arquivo, que não eram abertos há centenas de anos.

O professor lembrava bem do dia em que encontraram uma pequena porta gradeada, atrás da qual milhares de livros repousavam em altas prateleiras. Uma pequena placa empoeirada identificava o arquivo como De Cultu Sanctorum Ignotorum.

Não tinham a chave, mas notaram um pequeno livro separado dos demais, caído junto à porta gradeada. Sem pensar, o padre Theodoro espichou o braço e tocou o livro de capa de couro amarelado e que tinha um fecho de metal. O livro tombou e passou por um vão da grade.

Assustados, com o livrinho sob as roupas, os dois voltaram à sala principal, sem falar com ninguém. Deixaram a Biblioteca mais cedo, sem saber o que fazer com o misterioso objeto que havia caído em suas mãos.

No dia seguinte, foram transferidos para cidades diferentes nos Apeninos e não se encontraram por longo tempo.

***

Enquanto abria a porta, a adormecida pergunta voltou a incomodar o professor de Salamanca: “O que aconteceu com o livro de couro amarelado?”

O padre Theodoro Schneider parecia envelhecido, com os cabelos brancos mal penteados cobrindo a gola do casacão de lã. Se acomodaram junto à lareira e o professor notou o pequeno embrulho apertado sob o braço do visitante.

Conversaram durante horas, relembrando os anos que haviam se passado desde quando se despediram em Roma. Depois de uma pausa, o padre Theodoro deu um suspiro cansado:

“Meu caro amigo, vamos ao que me trouxe até aqui.”

E depositou o embrulho em papel pardo sobre a pilha de livros na mesa.

“Devo dizer que, mesmo depois de tanto tempo, nunca fui capaz de abrir este livro. Minha culpa tem sido maior do que minha curiosidade, mas é hora de me livrar deste peso.”

Abriu o embrulho e mostrou o livro de couro amarelado, com o fecho de metal. Os dois ficaram em silêncio por um longo minuto.

***

Depois de forçar o fecho com um canivete, abriram na primeira página e leram o título em letras desbotadas:

Opere Il Saggiatore.

Mas não havia o nome do autor.

O professor pressentia que algo extraordinário estava por acontecer. Posicionou sua lâmpada e começou a leitura do texto, escrito em italiano do século XIV. De quando em vez, apelava para a ajuda do amigo, que era um estudioso de antigos idiomas.

Logo nas primeiras páginas se deram conta que tinham em mãos um documento extraordinário, contendo pensamentos e anotações sobre política, universo e religião.

Os dois homens estavam cada vez mais intrigados: por que motivo aquele livro estaria oculto atrás de grades em uma obscura seção da Biblioteca de Teologia?

***

O professor lia páginas ao acaso:

“Todas as verdades são fáceis de compreender, desde que sejam reveladas: a questão é revelá-las. É preciso medir o que é mensurável e tornar mensurável o que não o é. O universo não pode ser lido até que apreendamos a linguagem com que ele foi escrito e nos tornemos familiares com seus caracteres. Pois foi redigido na linguagem da Matemática e seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas cujo significado é impossível de decifrar pelos humanos.

“Nas questões de ciência, a autoridade de mil homens poderosos não vale o humilde arrazoado de um único indivíduo. Eu nunca encontrei um homem  tão ignorante que não pudesse aprender alguma coisa com ele. Infinitudes e indivisibilidades transcendem nosso entendimento finito. Aqueles por conta de sua magnitude – este por conta de sua pequenez. Imaginemos o que acontece quando eles ficam juntos.”

O professor fez uma pausa e os dois se entreolharam.

“E quem pode duvidar das desordens da pior espécie que podem acontecer quando mentes livres criadas por Deus são obrigadas a se submeter servilmente à vontade de outrem? Ou quando nos ordenam a negar nossos sentidos e submetê-los ao capricho alheio? É assim que tem início a ruina das sociedades e a subversão do Estado.”

Quem teria escrito aquilo? Não era obra de um escriba anônimo nem um documento eclesiástico oficial. O autor devia ter sido banido e seu livro não podia ser lido sem autorização especial do Vaticano.

Mas, para obter a licença, eles precisariam explicar o inexplicável – como estavam de posse de um livro que não devia existir?

Discutiram intensamente até a madrugada. Em certo momento, o padre Theodoro ergueu-se, como quem toma uma importante decisão. Embrulhou o livro com cuidado e encerrou a discussão:

“Não há outra coisa a fazer a não ser devolvê-lo ao lugar ao qual pertence.”

***

Muito depois de seu visitante ter saído, o professor sentia-se agitado, sem conseguir ler nem ficar sentado. Abriu a janela e deixou a chuva gelada molhar seu rosto. Aos poucos, retomou a calma e tentou pensar com clareza.

Ele não conseguia tirar da cabeça aquilo que notara quase por acaso, na última linha da página final do livro. Parecia uma assinatura, que passara despercebida durante a leitura.

Compulsivamente, o professor de Salamanca rabiscou várias vezes as palavras que havia memorizado.

Esfregou os olhos cansados e olhou fixamente para o papel, como se não quisesse acreditar no que havia escrito:

“Galileo Galilei Fecit”.

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