Por J. A Moraes de Oliveira Ele não saberia dizer quantas noites solitárias havia passado em quartos de hotel, em capitais do outro lado do mundo ou em pequenas cidades com nomes esquecidos. Eram longos dias de trabalho duro, sem ânimo por diversões ou passeios, tempos marcados pelo sentimento de não pertencer à cidade onde estava, da inutilidade de ficar muito tempo longe de casa. Sentia falta da sua própria cama, junto à mulher e aos filhos.
Acordou naquela quieta madrugada com um estridente canto de pássaro, que tanto poderia ser um pavão ou uma araponga. Foi até a janela e olhou a rua lá em baixo, para se certificar de onde estava. Reconheceu os fundos dos prédios de apartamentos da Avenida Angélica, com raras luzes acesas àquela hora tardia. Sim, ele estava em São Paulo, mas que estranho canto de pássaro o havia acordado? Parecia ter desembarcado de um sonho, em outra janela em uma cidade desconhecida do passado. Ficou acordado por algum tempo, procurando estrelas no céu cinzento, ouvindo o latido solitário de um cão.
Quando criança, fora acordado certa noite por um alvoroço na fazenda, quando os cachorros avançaram contra um intruso que atravessara os campos sem avisar. Os tios buscaram as armas e correram para fora.
Mas o bulício não deu em nada e logo a casa e os campos voltaram à calmaria e ao silêncio de sempre. Naquela noite, ele manteve os olhos abertos por muito tempo, assombrado, olhando para a janela, esperando o intruso entrar quarto adentro.
Quando ele ficava estudando Matemática com João Paulo, na casa dele na Barros Cassal, o colega lhe confidenciara que havia um fantasma no quintal, que o perseguia nas noites de ventania. E isso o fez ouvir sons de portas se abrindo e vislumbrar sombras que não deveriam estar lá.
Outra vez, acordou no meio da noite em Porto Alegre, ao ouvir os latidos nervosos dos cachorros da casa. Era uma madrugada fria e enevoada, e quando tentou acalmar os cachorros entreviu, do outro lado da rua, o que os havia alvoroçado. Um vulto encurvado estava parado na esquina, coberto por uma capa curta. Olhava fixamente para a casa com o rosto ensombrado por uma árvore. Assustado, pensou em procurar ajuda, mas a curiosidade foi maior e resolveu ir até o portão para saber quem era o estranho.
Desceu as escadas e olhou mais uma vez pela janela da sala. Naquele momento pareceu-lhe reconhecer o rosto do homem encurvado. Atravessou o jardim e abriu o portão de ferro, com os cachorros latindo inquietos ao seu redor. Mas o vulto não estava mais lá.
Olhou para os dois lados da rua, que estava completamente deserta. Soprava um vento gelado, que parecia ter vindo de longe, sem encontrar ninguém no caminho. Um táxi subiu lentamente a rua, mas não parou e tudo voltou a ficar em silêncio.
Chamou os cães de volta e entrou em casa. Sentiu-se ridículo por seu medo pela estranha aparição e tentou voltar a dormir. No dia seguinte, tirou o carro da garagem para a manhã clara. O caseiro varria a frente da casa, recolhendo com a pá alguma coisa do pequeno gramado. Intrigado, apontou os tocos de cigarros e disse que eram de uma marca desconhecida.
Desceu a rua em direção ao tráfego da manhã, logo esquecendo o visitante noturno e se concentrando no trabalho que o esperava na agência. Durante todo o dia não pensou mais no assunto, até chegar em casa e ver o caseiro colocar o lixo na rua. Ao entrar na casa, ouviu as vozes das crianças e sentiu o cheiro de comida vindo da cozinha.
Quando saiu para passear com os cachorros, o caseiro trouxe um pequeno pacote com as pontas de cigarros que recolhera pela manhã. No jardim, à luz do poste, olhou demoradamente as baganas retorcidas e depois jogou o pequeno pacote no lixo.
Nas noites seguintes, espiou pela janela à espera do vulto, mas ele nunca mais voltou. Os restos de cigarros, que ele deixara para trás, eram da marca Elmo, que não se fabricava há muitos e muitos anos.

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