Por J. A. Moraes de Oliveira Subo a trilha montanhosa até Los Ermitaños, tentando alcançar o topo antes do cair do sol. Ao chegar, o primeiro impacto é o maciço da Sierra de Guadarrama, que domina o horizonte até onde a vista alcança.
Procuro e encontro um vão entalhado na pedra, em formato de cadeira. Neste mesmo lugar sentava-se Felipe II, um dos mais poderosos monarcas europeus do século XVI.
Dali, ele acompanhou, dia a dia, por mais de 20 anos, a construção do grande monumento de arquitetura religiosa que arrasou com sua saúde e esvaziou os cofres da coroa espanhola.
A floresta de cúpulas e torres de San Lorenzo del Escorial brilha à última luz do sol, tendo ao fundo as montanhas já se tingindo de um azul escuro.
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Eu havia passado o dia nos intermináveis corredores do grande edifício, assaltado por sentimentos contraditórios. Na grande biblioteca me senti intimidado sob os impressionantes afrescos que abrigam um conjunto de milhares de manuscritos e livros raros do século V ao século XVIII. No Panteão Real, fui assombrado pelos incontáveis reis, príncipes e rainhas encerrados nas urnas negras e douradas da bomboniére.
Os modestos aposentos de Felipe II são ainda mais perturbadores.
Ali ele permaneceu anos a fio, solitário, tentando conduzir os destinos de um vasto império, que nunca visitou e que não soube manter unido.
Um dos grandes reis católicos de Espanha, Felipe II, ordenou a construção do Escorial para celebrar a vitória dos espanhóis sobre os ingleses, em 1577. Como a guerra terminou no dia da festa de São Lourenço, o edifício tem sua planta baixa na forma de uma grelha de assar, instrumento onde o santo foi martirizado.
Felipe II foi um dos tantos personagens fascinantes, dos quais a história da Espanha está repleta. De seu pai, o imperador Carlos V, herdou vastos domínios, que incluíam os poderosos reinos de Aragão e Castela, Flandres e os Países Baixos, Bramante, além de terras distantes, na América do Sul e nas Filipinas, onde chegava a sombra da coroa espanhola.
Minhas divagações são logo interrompidas por um alegre e ruidoso grupo de turistas que se aproxima para tirar fotos na Cadeira de Felipe. Me esgueiro pelo outro lado, descendo a montanha em direção à estrada. Quero chegar logo a Madrid – os jornais estão anunciando que Guernica de Pablo Picasso está de volta, depois de quase 50 anos de exílio, para ser instalada com honras e glórias em uma nova ala do Museo del Prado.
E os mesmos jornais falam em um atentado à bomba dos separatistas bascos contra a famosa obra de arte.
É impossível evitar a comparação daquele monarca do século XVI, construindo um palácio monumental à custa do ouro do Novo Mundo, com o terrorismo ameaçando um dos ícones do século XX.
E permanece a perplexidade sobre esta terra misteriosa, trágica e visceral.
A cada revisita, a Espanha se apresenta como um novo e intrigante labirinto. E sempre que tentamos entendê-la, mais dela nos apaixonamos.

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