Por Rafael Bordin Schuch
Em todo o país milhares de professores, funcionários e alunos das universidades públicas federais não sabem em que dia irão recomeçar suas atividades no semestre de 2012. Enquanto isso, no auge da crise, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, parte para os jogos olímpicos de Londres. Ganhar medalhas de ouro, prata e bronze é importante para mostrar ao mundo a grandeza esportiva de um país, entretanto, chegar em primeiro lugar na prova de natação não resolve o gravíssimo problema de mais de 1 milhão de famílias no Brasil.
Além disso, a bagunça e o descaso na educação são generalizados, pois há anos os professores das escolas estaduais e municipais de todo o país não conseguem mais viver dos seus salários, eles apenas sobrevivem. Dessa forma, é óbvio que a aula dada não rende frutos. O governo, não investindo tanto no professor quanto no aluno, mostra para a sociedade sua opinião sobre aonde se deve investir, não na educação. Um governo deve ter prioridades, não fazer propaganda de campeões e atletas e esconder que não tem maturidade suficiente para acabar com a greve que se arrasta há meses. É um absurdo as atividades nas universidades públicas estarem paradas e o governo não dando indícios concretos de que está disposto a resolver o problema.
Quando a bagunça é generalizada, a teoria é a seguinte: o professor finge que ensina, o aluno finge que aprende e o diploma finge que é um documento que tem valor. Desta forma, o MEC e as universidades mostram-se desmoralizados. O ministério, por autorizar o funcionamento de cursos, como os de Medicina do estado de São Paulo, em que agora os alunos terão que passar, ao final da faculdade, por uma prova obrigatória para constatar a qualidade do ensino, e no caso dos cursos de Direito, por expedirem diplomas que não valem no mercado profissional, já que precisam fazer o exame da Ordem para exercer a advocacia. O diploma, sem a carteira expedida pela Ordem dos Advogados do Brasil, vale muito pouco.
Por outro lado, auxiliando o aumento da mediocridade futura, a moda atual implantada em muitas faculdades é ensinar seus alunos não mais a partir da atuação do professor no quadro e livros, mas a partir de imagens virtuais ditas modernas. Uma precisa e clara definição sobre o que está ocorrendo com a educação é a afirmação do ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, em palestra no Brasil no final da década de 1990: “O processo de aprendizado está deixando de realizar-se através de livros para acontecer através de imagens. Eu, assim como minha geração, recebi minha educação através dos livros. Quando nós lemos, formamos conceitos, o que permite relacionar uma diversidade de eventos entre si. Além disso, somos forçados a desenvolver a imaginação, já que é necessário conferir alguma realidade ás descrições dadas. Quando a informação chega através de imagens, não se formam conceitos e sim impressões, e passa-se a reagir com base em sentimentos. A meu ver isso complica ainda mais a situação, já que é muito difícil ter-se a mesma impressão ao rever uma figura, pois essa impressão depende inteiramente do contexto. Temos então uma estranha situação na qual existe menos imaginação e mais emoção na política atual”. Este conceito, por tabela, estende-se também para os nossos graves problemas sociais.
Darcy Ribeiro criou e estruturou a Universidade de Brasília, tornando-se seu primeiro reitor. O ministro da Educação do ex-presidente João Goulart jamais fez tanta falta quanto agora, pois sendo um homem que entendia o conceito de Brasil, sabia quais mazelas deveriam ser sanadas para que o país entrasse na estrada do progresso. Educação é um investimento caro, com resultados a longo prazo, mas tinha consciência e coragem para assumir o risco de resolver um dos mais dramáticos problemas brasileiros.
Por fim, é preciso também citar o recém-lançado livro “Além da Euforia; riscos e lacunas do modelo brasileiro de desenvolvimento”, de Fabio Giambiagi e Armando Castelar Pinheiro (editora Campus). Nele, o economista Marcio Gold Firmo escreve um artigo sobre educação. O título resume muito bem o que ocorre no Brasil: “Educação: de fusquinha no mundo da F1”. Esta comparação define o prejuízo já existente que levará muito tempo para ser corrigido, mesmo porque entre um fusca e um carro da Fórmula 1 existem muitos e muitos níveis de evolução. Dessa forma, se o desprezo pela crise na educação persistir, poderá no futuro haver a comparação entre não mais um fusquinha, mas uma carroça com um carro da Fórmula 1.

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