Por Antônio Goulart (Lembrando os 400 anos do nascimento do padre Antônio Vieira)
Vieira e Bernardes. Estes dois jogariam no meu time ou em qualquer seleção. Sempre como titulares absolutos. Formam, indiscutivelmente, uma das duplas mais categorizadas da literatura em língua portuguesa. Do século 17, com certeza, a melhor.
Ambos atuavam de preferência no ataque. Encantaram, mais do que ninguém, seus contemporâneos. E continuam encantando as gerações que os sucederam. Foram uma espécie de Pelé-Coutinho das letras luso-brasileiras.
Antônio Vieira (1608-1697) e Manoel Bernardes (1644-1710): talentos parecidos, estilos diferentes. Vieira era imprevisível. Sobressaía pela impetuosidade, pela eloqüência de sua postura. Jogava muito para a torcida, sem deixar de ser eficiente e desconcertante (para os adversários) nas conclusões. Bernardes era o craque cerebral. Mais comedido, um poeta, um místico da bola (da palavra). Às vezes, malicioso e irônico. Pensava as jogadas, antevia os lances e armava contra-ataques primorosos.
“Uma coisa é o soldado e outra coisa é o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega.” – Vieira, Sermão da Sexagésima.
Um crítico já disse que Vieira é admirado, enquanto Bernardes é admirado e amado. O que não impediu que o escritor brasileiro Múcio Leão classificasse este último de “demônio angélico”. Em sua obra clássica, Nova Floresta, há uma passagem
O ator Lima Duarte é hoje um dos mais ardorosos fãs de Vieira no Brasil. Correto intérprete de dezenas de telenovelas, garante que o maior sucesso de sua carreira foi o filme “A palavra e a utopia”, feito em Portugal, no qual desempenhou o papel do famoso pregador. De tal forma encarnou a figura do religioso, que guarda na memória longos trechos de seus sermões.
A admiração do ator é refletida – como ele próprio confessou – no hábito de recitar em voz alta passagens dessas prédicas durante as caminhadas solitárias que costuma fazer pelas veredas de seu sítio, nos confins de Minas Gerais. Só quem não entende isso – diz ele – são os caboclos vizinhos que, vez por outra, comentam entre si:
– O Sassá Mutema endoidou. O Zeca Louco anda falando besteira pelos matos…

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