Por Álvaro Nunes Laranjeira O ex-premiê português Pedro Santana Lopes deu uma aula de jornalismo ao jornalismo no dia 26 de setembro, durante o Jornal da Noite, no canal lusitano SIC Notícias. Aconteceu o seguinte: o político discorria a respeito da crise no Partido Social Democrata quando a apresentadora Ana Lourenço, avisada pela produção do programa, interrompeu o entrevistado para chamada ao vivo do Aeroporto da Portela,
– Estávamos a falar…
– Sabes onde que estávamos? – retrucou Santana Lopes.
– Sei, estávamos a falar…
– E achas que esta interrupção se justifica?
Ana se desculpou e mencionou a importância do Mourinho como figura pública, merecedora da entrada ao vivo. Sem pestanejar, Santana Lopes arrematou:
– Vim aqui com sacrifício pessoal, chego e sou interrompido por causa de um treinador de futebol. Acho que este país está doido, desculpe dizer, com todo respeito, e, portanto, não vou continuar a entrevista. Acho que os senhores têm de aprender.
Eis a frase mágica: “Acho que os senhores têm de aprender”. Sim, precisam mesmo. Em Conselhos a um jornalista, texto redigido em 1737, o filósofo francês Voltaire rogava: “Quisera Deus fosse tão fácil remediar o vício que produz todos os dias tantos escritos mercenários, tantas citações infiéis, tantas mentiras, tantas calúnias com as quais a imprensa inunda a república das letras”. Hoje acrescentaríamos: e tantas matérias ordinárias, e tanto pedantismo, e tanta empáfia, e tanta grosseria, e tanta falta de educação e tantas bobagens. Aos domingos, por exemplo, a programação da TV aberta brasileira atenta contra a saúde mental dos seres, incluídos aí os animais, vegetais e minerais.
Santana Lopes apenas seguiu à risca a sugestão dada por Zeus a uma serpente inconformada por ser sucessivamente pisoteada: “Se tivesses mordido o primeiro que te pisou, um segundo não teria feito o mesmo”. Questão de respeito próprio, personalidade. Enquanto as pessoas postarem-se com alma subalterna diante da mídia, aqueles senhores aludidos pelo parlamentar português continuarão a inocular o veneno da midiocridade. Então, tenhamos coragem e auto-estima, como ensinou o ex-premiê Pedro Santana Lopes.

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