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Vento nos Areiais

Por J. A. Moraes de Oliveira O homem de barba alourada adentrou a trote a pequena vila nos areais da lagoa. Vestia um poncho …

Por J. A. Moraes de Oliveira

O homem de barba alourada adentrou a trote a pequena vila nos areais da lagoa. Vestia um poncho sujo e usava um chapéu cor-de-burro-quando-foge. Desmontou, pediu pouso na pensão e uma ração de alfafa para o tordilho negro, que estava encilhado à moda dos fronteiriços.

Não levou muito tempo para que metade do povo da vila especulasse sobre a chegada do estranho. Aqui e ali, mulheres se debruçavam nas janelas, enquanto os velhos se encostavam nos portais, procurando saber o que se passava. No bolicho do Joca Fonseca, homens desocupados bebiam canha de garrafão e conversavam sobre coisa nenhuma.

O peão da cocheira entrou e foi cercado pelos homens desocupados. Não se fez nem um pouco de rogado mas procurou fazer mistério – virou um copo de canha e garantiu que vira um fuzil Mauser enfiado nos pelegos do tordilho do visitante.

E, com os olhos arregalados:

– O homem tem uma adaga de degolador atravessada na cinta.

***

Fazia mais de duas semanas que ele cavalgava por campos ainda encharcados pelas chuvas do verão. Como tinha pressa, não perdia tempo procurando trilhas de gado. Ao deparar com uma cerca em seu caminho, laçava um moirão e a deixava deitada no chão. Era seu jeito de mostrar desprezo com os forasteiros que se adonavam das terras dos homens que estavam longe, envolvidos nos entreveros na banda oriental.

Vislumbrou um cortejo de carretas carregadas de charque, vindo dos lados de Camaquã. Saudou o chefe dos carreteiros e pediu orientação sobre o caminho para as Pedras Brancas. O carreteiro, desconfiado pela aparência do estranho, falou pouco, apontando com o queixo magro para os areais:

– Uns três dias a passo ou um dia-e-tanto a trote.

Nuvens escuras rolaram pelo céu, anunciando o vento pampeano e o cavaleiro procurou um capão de mato. Fez uma cama de pelegos junto a uma figueira caída e acendeu um pequeno fogo. Em minutos, o homem ficou imóvel, parecendo dormir, mas estava alerta aos sons do mato e do campo.

***

Mal o céu clareou, Juan Emerenciano esporeou o tordilho, sentindo o vento sul empurrá-lo em direção aos areais. Enfiou a mão no bolso do jaleco e tirou um pequeno caderno surrado, coberto por letras toscas de quem não estava acostumado a coisas de pena e papel. Era o diário de campanha de Lopez Chico, o capitão dos provisórios, que ele enterrara em uma cova sem nome, nas barrancas do rio Uruguai.

A vida é mesmo madrasta – filosofou Juan Emerenciano – um homem sem medo derrubado por um balaço nas costas, disparado por um correntino covarde, dois dias antes de ser assinado o acordo que selou a paz entre chimangos e maragatos.

Dentro de sua cabeça, ouvia a voz do avô castelhano:

– Deudas de honor se pagam vivo, não morto.

***

Os homens desocupados espiavam pela janela, sem conseguir enxergar o tal homem de barba alourada. Chegou a hora do almoço, eles esvaziaram os copos e saíram para a rua deserta. Joca Fonseca limpou o balcão com um pano sujo, guardou o garrafão de canha e passou a tranca na porta da frente. Então, viu a porta dos fundos aberta, batendo solta ao vento.

Entrou no pequeno quarto de despejo e quase caiu, tropeçando no corpo de bruços, o sangue negro empapando o chão de terra. No mesmo instante, ouviu um trote de cavalo rua abaixo.

Não havia ninguém à vista quando Juan Emerenciano deixou a vila e sumiu nos areiais.

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