Por J. A. Moraes de Oliveira Os primeiros frios do inverno eram anunciados pelas vidraças embaçadas do sobrado em que moravam em Porto Alegre. Então, como por encanto, a vida se movia mais vagarosamente, em uma rotina preguiçosa. As pessoas se recolhiam dentro de suas casas, procurando o calor dos fogões a lenha.
Os ventos gelados de agosto haviam chegado. Com um ar resignado, a mãe retirava os casacos e mantas do fundo dos guarda-roupas e por alguns dias, todos exalávamos cheiro de guardados.
Olhando para as calçadas molhadas e desertas, ele resolveu trocar um punhado de suas melhores bolas de gude por livros de aventuras. Seu amigo Arno Dreher, lá da Castro Alves, relutou, mas acabou aceitando a troca. Feliz da vida, ele correu Ramiro Barcelos abaixo, apertando debaixo do braço “As Novas Aventuras de Sherlock Holmes”, de Conan Doyle e os dois volumes de “Winnetou”, de Karl May.
Em casa, arrumou os livros em uma pequena pilha e preparou-se para uma longa tarde de leituras na poltrona do pai. Alguns minutos depois, ele já estava cavalgando pelas pradarias do Velho Oeste ou investigando uma misteriosa morte ocorrida em um castelo inglês.
Lá pelo meio da tarde, a mãe trazia uma caneca de chocolate espêsso e fumegante, preparada com barras derretidas de chocolate Neugebauer. A tarde passava num instante e logo era noite e hora do pai chegar. E já se ouvia o sopro do vento sudoeste nas telhas do pequeno sobrado. O pai chegava, ia para junto ao fogão esquentar as mãos e contava que seus colegas nos armazéns do cais do porto haviam passado o dia com os sobretudos vestidos, com o minuano assoviando pelas frestas dos portões.
E quando o speaker da Radio El Mundo, de Buenos Aires, anunciava uma frente polar sobre o Mar da Prata, o pai sentava-se à mesa e sentenciava solene: “Vamos ter um agosto gelado”.
***
Muitos invernos depois, ele encontraria o mesmo vento vindo do Guaiba nos finais de tarde, subindo pela Sete de Setembro e varrendo a Praça da Alfândega. Onde as pessoas caminhavam curvadas, entre árvores sem folhas, procurando abrigo nos cafés ou nos vãos do edifício do Clube do Comércio.
Ele chegava na redação do jornal, onde os redatores fumavam um cigarro atrás do outro, enquanto aguardavam os últimos telegramas das agências de notícias. Secretamente, esperavam que nada de importante acontecesse no mundo naquela noite, obrigando uma mudança nas manchetes do jornal, já quase pronto para rodar.
A noite avançava e os veteranos começavam a debandar, em direção ao abrigo de bondes e a caminho de casa. Os mais jovens ficavam mais uma ou duas horas, fechando suas matérias. Quando terminavam, saíam em grupos para um dos restaurantes do Mercado, em busca de uma canja quente e meia garrafa de clarete.
Ele teimava em ficar na redação quase vazia, esperando ser chamado para redigir uma notícia de última hora. Então, com um pequeno sobressalto, ouvia a campainha do teletipo, anunciando um telegrama tardio da Associated Press ou da France Press.
O secretário de redação arrancava o papel da máquina, olhava ao redor e o convocava com um gesto cansado. Ele assumia uma das velhas Underwood, lendo e relendo o telegrama, procurando entender o que estaria acontecendo do outro lado do mundo.
Quase sempre não havia muito o que escrever, mas ele arriscava um título chamativo e desencavava uma foto qualquer de arquivo, que combinasse com a história.
Corria a entregar a matéria ao secretário, que, sem nenhuma reação, cortava alguns parágrafos, rabiscava uma anotação e jogava texto e foto na caixa de saída.
Ele acompanhava o contínuo até a oficina, para ver o texto adquirir forma em chumbo e ser acomodado em uma página interna. Ainda não seria daquela vez que sua matéria teria uma manchete de alto de página.
Quando nada mais havia por fazer e a grande rotativa já começava a cuspir jornais, ele atravessava a praça deserta até o Matheus. Lá, sempre encontrava um ou outro colega de jornal, terminando o dia com um bauru. E, às vezes, um de seus amigos mais velhos, começando a noite com uma dose de conhaque.
Na banca junto ao Cinema Central, um grupo de notívagos esperava a chegada dos jornais do dia seguinte, batendo os pés e esfregando as mãos para afugentar o frio.
Ele espiava as manchetes, conferia sua matéria e subia sem pressa a Rua da Praia. O último bonde já havia saído e ele tomava o rumo da Avenida Independência, acompanhado pelo vento de agosto.
Ainda faltavam muitos dias para a primavera e para as tardes longas e cheias de luz.

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