Por Glauco Fonseca A imprensa brasileira fez bem o seu tema de casa na visita de George Bush ao Brasil. Dedicou o maior espaço editorial a duas frentes distintas do acontecimento. Uma delas foi o aspecto econômico da produção do álcool etílico, mais conhecido como etanol, como alternativa energética renovável para os EUA e suas implicações para a economia brasileira. A outra pauta derivada foi o transtorno que a chegada de Bush a São Paulo trouxe aos pobres paulistanos. A televisão se ocupou intensamente deste último segmento, com ênfase nas passeatas e protestos. E como se ocupou.
Um arguto leitor da Folha de S. Paulo (seção Cartas) levantou um aspecto interessante da cobertura. Segundo ele, era muito bom saber que o povo estava de volta às ruas, bradando palavras de ordem e demonstrando sua indignação e seu descontentamento. Durante o mensalão e os escândalos repetidos nos últimos três anos, estranhamente, nenhuma movimentação popular foi percebida nas ruas deste país. Na semana passada, até mesmo bandeiras do PT foram vistas novamente, ao lado de bandeiras da CUT. Mesmo depois de milhões e milhões desviados dos cofres públicos no primeiro mandato do presidente Lula, depois dos empréstimos nebulosos, de quebra de sigilo do caseiro, mesmo depois de tanta ofensa ao bom senso, nenhuma pessoa achou que tudo o que estava acontecendo fosse motivo para ir às ruas protestar.
Nem tudo estava perdido. Domingo à noite, zapeei até a Rede TV e me detive nas travessuras da turma do Pânico. Lá estavam os “repórteres” Vesgo e Sílvio no meio da avenida Paulista, de microfone na mão, perguntando as coisas que todos nós gostaríamos de saber. A primeira entrevistada foi uma senhora dos seus 60 anos. Uma bandeira vermelha estava ao fundo. Devia ser da Tunísia. Vesgo perguntou:
– O que a senhora está fazendo aqui?
Ela gritou:
– Fora Bush!
– E quem é o Bush, a senhora sabe? – Perguntou o Vesgo.
– Não…(risos)
Outro momento importante foi quando Silvio perguntou a um sujeito dos seus 40 anos quem era o Bush. O homem lascou:
– É aquele presidente do Iraque.
Outras “entrevistas” se sucederam, todas do mesmo jeito. O programa então se transformou num tratado sobre jornalismo puro, diferente do que eu havia visto na cobertura da visita do presidente americano. Descobri, graças aos dois “repórteres” do Pânico, que a maioria daquelas pessoas na Avenida Paulista não tinha a menor idéia do que estava fazendo lá.
Houve um breve momento de exceção quando se ouvia ao fundo um grupo de vozes que cantava:
– Fora Bush, o Bush é inimigo. E quando for embora, leva o Lula contigo!
Foi bem rapidinho, mas eu ouvi. Eu e o autor daquela carta à Folha ficamos um pouquinho mais tranqüilos.
***
Em tempo:
Ao me preocupar mais com a idéia central do artigo, acabei cometendo um erro quanto aos verdadeiros “repórteres” que säo outros caras também engraçados que fazem os personagens do Lula, do Enéas e do Bob Jeff. Agora poderei sossegar a turminha da Rosana Hermann (minha mais nova amiga). Fiquem em paz e obrigado pela leitura.

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