Por Antonio de Oliveira
Nada contra Joãozinho Trinta, que alegrou tanto o nosso povo mais humilde, um gênio que transformou o Carnaval carioca e o Natal Luz de Gramado. Um baixinho arretado que ainda guri arrumou a mochila no Maranhão e saiu para ser bailarino (vejam só!!!) no Municipal.
Deu dignidade para um bando de bicheiros que não sabiam o que fazer com tanto dinheiro que tinham e que vinha justamente das classes mais humildes, daqueles que fazem uma fezinha para ver se melhoram ou até mudam suas vidas. Sua glória foi tanta, tanta, que atropelou sua saúde, mas ele nunca parou. Virou até animador dos internos quebrados do hospital Sara. Só a morte parou sua força e sua alegria, alegoria.
Nada contra o Sérgio Brito, que há poucos dias eu estava vendo a apresentar com a maior dignidade um documentário na TV Brasil e ainda comentava com minha mulher que “eu gosto muito deste cara”. Um homem que formou-se médico para dar alegria aos pais e passou a vida fazendo teatro para dar alegria a si mesmo a todos que o assistiram.
Sérgio era um cara que transmitia confiança a quem o via na televisão. Falava com naturalidade, como se estivesse conversando com o telespectador. Uma figura enorme que o Brasil perdeu. Quem não acredita é só ler o que disseram seus amigos, como Fernanda Montenegro.
Nada contra Vaclav Havel, líder político e cultural de tempos difíceis, em que até teve que virar presidente, misturando sua dramaturgia com os dramas da política para evitar mais problemas entre os seus compatriotas, com a sua Revolução de Veludo. Os tchecos e os eslovacos nunca se suportaram.
Convivi com dois deles por uns tempos em Moçambique e me divertia com as suas divergências e argumentações. Eles trabalhavam seu ódio comum sempre e muito a sério. Quando eu, só de sacanagem, chamava o eslovaco de tcheco, ouvia dele um monte de ofensas na língua dele, e ele me desafiava perguntando “sabes o que quer dizer tudo que eu te falei ?”, eu agradecia a tradução e dávamos boas risadas.
Acabar com aquilo, depois de tantos anos de ditadura comunista, não era coisa mesmo para um político. Era missão para um dramaturgo. Para convencer a todos de que a verdade e o amor devem prevalecer. Só mesmo ele.
Mas eu estou escrevendo é para dizer que fiquei indignado ao ver a caboverdiana Cesária Évora lá no fim de um obituário. Última lembrada, último texto. Só por que era negra? Não. Não pode ser, aqui não há racismo, não é mesmo? Pela pouca importância? Claro, ninguém é obrigado a saber tudo de todos os artistas que perambulam por este mundão.
Mas Cesária foi muito importante para ser a última lembrada no obituário, ou num cantinho de página, ou misturada com alguém. Onde estavam os editores de cultura? De arte? Mas era sábado… Isto não é resposta.
Cesária de Mindelo, a Diva dos Pés Descalços, que um dia invadiu Paris e botou os franceses a cantar e bailar a morna. Ainda menina, começou a cantar nas praças, depois nos bares, hoteis. Até chegar a ser a Rainha da Morna. No início, não soube administrar os tempos de liberdade, que surgiram a partir de 1975 com a independência de Cabo Verde do jugo de Portugal. Desarrumou sua vida, teve que dar mais atenção à família, a bebida consumiu sua harmonia e ela ficou confusa por cerca de dez anos. Mas voltou.
Em 2004 conquistou um prêmio Grammy de melhor álbum de world music contemporânea. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, distinguiu-a, em 2009, com a medalha da Legião de Honra entregue pela ministra da Cultura francesa, Christine Albanel. Ela não era mesmo pouca coisa. Está tudo pronto na internet.
Mas antes de conquistar Paris e o mundo, Cesária, recuperada de todas as doenças que o alcoolismo lhe causou, passou por Portugal. Seu sucesso veio quando já estava com 47 anos. Em 1988, lançou em Paris o álbum A Diva dos Pés Descalços e, em 1992, Miss Perfumado. Depois, andou algumas vezes aqui pelo Brasil.
Em Setembro de 2011, após cancelar um conjunto de concertos por se encontrar muito debilitada, a sua editora, Lusafrica, anunciou que a cantora pôs um ponto final na sua longa carreira. Toda sua história está na internet e não seria difícil recuperá-la e editá-la melhor, num País em que mais de 50% são negros ou descendentes de negros. Ela merecia mais que um simples rabo de obituário.
Pelo Brasil deixa amigos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Marina Lima, Marisa Monte, Martinho da Vila e tantos outros. Vocês já ouviram ela cantando com a Marisa Monte? Vocês já ouviram ela cantando Besame mucho? Não ouviram, não é?
Viva Cesária Évora!!!

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