Por Glauco Fonseca “O sufrágio universal, ao dar um boletim
de voto àqueles que sofrem, retira-lhes o fuzil”.
Victor Hugo
Toda a teoria conspira contra a prática neste Brasil do Século XXI. Toda a essência da comunicação, do princípio de liberdade de manifestação às garantias constitucionais, passando pela versão mal acabada do que conhecemos por estado democrático de direito, tudo revela uma grande conspiração, uma inédita trama que almeja, talvez aparentemente, definir uma história toda própria, sem reedições, repetições ou farsas até.
Os autores desse enredo? O nobre e sábio povo da República Federativa do Brasil. Não são os líderes de opinião, por mais poderosos que pareçam, nem os conglomerados de comunicação; não são os políticos, não são as novelas, nem os telejornais, nem os pilotos de fórmula um. Quem está apresentando uma perspectiva nova de escrever a história é o próprio povo.
Nunca os veículos de comunicação foram tão intensos, pontuais, investigativos e repetitivos. Rádios, jornais, televisões, somados aos novos e ubíquos canais da Internet, dão um panorama diário de uma crise que parece não ter fim. Toda a teoria da comunicação se rende ao fenômeno que é o fato do presidente não cair nas pesquisas. Nunca alguém foi tão suspeito, tão implicado, teve sua imagem tão esbofeteada quanto Lula. Jamais houve tanto fato arrasador, capaz de derrubar qualquer outro líder em qualquer outro continente; jamais houve tanta divulgação de fatos abomináveis de envolvimento vicioso de lideranças políticas e, o que é ainda mais intrigante, lideranças políticas de um partido ilibado, virginal e casto, o que, a princípio, deveria exponenciar as denúncias. Atenção para o fato de que eu disse denúncias. Eu não disse boatos.
Os teóricos e os práticos da comunicação, os bam-bam-bans do jornalismo, os mestres sociólogos, os doutores da filosofia, enfim, todos estão diante do repto de explicar o que está acontecendo. Estão desafiados a explicar porque até agora o povo não foi às ruas exigir a saída de Lula do governo, estão desde já provocados a tentar explicar o fenômeno mais inexplicável que já observamos desde o dia em votamos pela primeira vez.
Quase um ano depois da denúncia do mensalão, quase dois anos após o escândalo Waldomiro Diniz, tudo isso regado a caixas de whisky com dólares vindos de Cuba, roubos comprovados, escandalosos e muito, muito mais, tudo divulgado ad nauseum, sem censura, sem perdão e, pasmem, nenhum alicerce do governo petista abalou-se um centímetro sequer. Mesmo com Lulinha, mesmo com Okamotto, mesmo com qualquer outra denúncia que venha pela frente.
A única explicação plausível é que o Brasil não deseja mais fazer o que já foi feito. Já executou o impeachment de um presidente por causa de corrupção e amargou resultados ainda piores em termos de corrupção em todos os níveis gerenciais do estado brasileiro. Já viu que destituir o líder corrupto não é mais paradigma para que o próximo líder não o seja. Já conhece bem seu Congresso e sabe que a putrefação é total. Vai trocar alguns mas sabe que o contexto, a cultura se manterá. Não é importante, portanto, cassar um, dez, 50 deputados. O que o povo realmente procura é uma forma de cassar a corrupção.
A tese mais aceitável é acreditar que não há mais milagres nem milagreiros. Não existe mais o “presidente operário”. Nunca houve. Este fato, talvez mais do que o conjunto de denúncias de corrupção no governo do PT, é aquele que mais dói naqueles que acreditavam na esperança, no sonho. O povo brasileiro não se deixa mais encantar, não se entusiasma mais com discursos, não sorri mais para qualquer um.
A cada dia que passa, a duras penas, o povo do Brasil vai perdendo suas esperanças em ter governantes que respeitem povo, pátria e nação.
Como resultado, teremos em breve, infelizmente, um país sério que não acreditará mais que Deus seja seu conterrâneo.

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