Por Carlos Saul Duque
Léo Mainardi é empresário e pai de Carleffa, 24 anos, cadeirante desde pequenininha.
Mas, acima de tudo, Léo é um idiota.
No último domingo, foi golpeado na cabeça com uma barra de metal porque repreendeu o motorista que estacionava na vaga de deficientes físicos do hipermercado Makro de Porto Alegre. Léo sempre observa e, como ele mesmo diz, “dá um toque” para quem ocupa estas vagas especiais, pois lembra da dureza que sempre foi a locomoção de Carleffa.
Léo foi agredido verbalmente. Depois, fisicamente. Não satisfeito, o motorista atirou-lhe tubos de álcool gel. E arrancou uma barra de metal de uma gôndola e acertou a cabeça dele. Isto lhe rendeu um coágulo no cérebro e uma cirurgia de emergência.
Da entrevista de Léo que li na Zero Hora, o que mais me impressionou não foi a fúria do motorista, mas a argumentação. Ele foi taxativo: “Você é um idiota que quer aparecer”.
Bom, se isso serve de consolo, Léo, eu também. Eu sou o idiota que acredita em faixas de segurança. Em esperar as pessoas saírem do elevador primeiro para entrar depois. Sou o idiota que dá passagem aos carros que entram na via, mesmo sob o coro de buzinas dos que vêm atrás. Outro dia, cometi a idiotice de deixar a calçada desimpedida para os pedestres enquanto esperava para entrar no estacionamento, mas uma motorista sensata mostrou o meu erro me ultrapassando por cima da calçada para estacionar antes de mim.
Mas o meu rol de idiotices não acaba por aqui. Eu também tento teimosamente não acelerar no sinal amarelo e não trancar o cruzamento. Não conversar no cinema, não furar filas, não levantar do meu assento no avião antes dele estar realmente parado. A minha rotina de idiota é intensa e, realmente, incomoda muita gente. Mas ainda não levei uma barra de metal na cabeça.
Outro dia, indo para o futebol, tive o meu dia de não idiota: avancei pela pista da direita enquanto todos estavam em fila na esquerda. Lá na frente havia uma viatura da EPTC trancando a faixa, o que eu só percebi quando cheguei perto. Parei o carro e dei sinal à esquerda, mas todos os motoristas – torcedores do meu time – fizeram questão de não me dar passagem. Até que um deles me chamou de volta à idiotice:
– Tu acha que vai passar todo mundo pela direita?
– Eu não vi que a pista estava interrompida. Por favor, posso…
– Tu não vai passar todo mundo pela direita. Tu sabe que essa pista sempre fica interrompida!
– Mas eu nunca venho por esse caminho, não tinha como eu sab…
– Tu não vai passar todo mundo pela direita!
Depois de alguns carros, ganhei passagem. Mas aprendi a lição: eu sou um idiota tão grande que, até quando dou uma de esperto sem querer, faço papel de idiota.

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