Por Glauco Fonseca Primeiro, ligue a TV. Se você tem cabo, tudo bem. Você é apenas menos infeliz do que 90% dos demais telespectadores gaúchos. Comecemos pela hipótese de que você tem criança em casa e elas adoram o Cartoon Network. Lá, você verá que seu filho pequeno, seu netinho, a filha da sua vizinha, assistem a um desenho chamado Billy e Mandy. Pois Billy e Mandy são crianças supostamente mortas, que são “tuteladas” por um esqueleto chamado Puro Osso, uma caricatura daquela velha figura da morte, com manto preto e foice na mão. O desenho é um absurdo a cada capítulo. E as crianças adoram Billy e Mandy, assim como adoram o Acampamento de Lazlo, o Ben 10 e outros desenhos que são, para dizer o mínimo, lixo puro.
Agora zapeie para outro canal. Apenas por curiosidade, caso você não seja um fervoroso crente, confira as façanhas e pregações dos eminentes “bispos” eletrônicos. As opções são várias, passando pela Igreja Mundial do Poder de Deus, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja da Graça no seu Lar, tudo num só canal! Depois mude para aquele programa local com as belas moças e o sujeito com balões simulando seios gigantescos e ausência total de amor próprio, passando pelo Pânico na TV, não sem antes prestigiar os programas do Luciano Huck, do Faustão e do Casseta e Planeta, onde o apelo sexual é acima e o humor abaixo da linha da cintura. Quando você se der conta do que está assistindo, vai mudar o canal e dará de cara com o velho, idiossincrático, mau caráter e sempre querido Pica-Pau. Aliás, poucos desenhos são tão consagradamente desaconselháveis como o Pica-Pau.
Vou deixar de lado as novelas, aquelas que escancaram adultério, violência, sacanagens diversas e muita canastrice. Tem até uma novela em que atua a Preta Gil, imagine só. A maioria das novelas, você sabe, é o que de pior o sujeito pode fazer para ocupar seu tempo e é o que há de ainda “mais pior” para preencher o tempo de seus filhotes. Há uma ou outra que prestam. Uma ou outra.
Ao zanzar para lá e para cá com o controle remoto, você poderá observar a qualidade da programação, da imagem e do som do Canal 6, as virtudes olímpicas de sensacionais espremedores sendo anunciados ad nauseum em outros sete ou oito canais, os leilões de tapetes chiquérrimos tramados por crianças e/ou trabalhadores em situação miserável em algum lugar no Irã, documentários interessantíssimos sobre lésbicas em fúria ou sobre pessoas contando seus avanços sociais após a troca de sexo.
Se você tem os canais do Senado, da Câmara Federal, da Assembléia e de outros órgãos públicos E OS ASSISTE, bem, você está precisando realmente não de uma televisão, mas de um apoio psicológico intenso. Você ainda tem chance, homem! Não se entregue!
Voltando ao título deste singelo artiguinho, você ainda quer saber por que a TVE? Eu adiciono o seguinte: se ela NÃO existisse, haveria um monte de gente
enchendo o saco, dizendo que deveríamos ter uma TV com uma programação humanista, com programas de qualidade para as crianças, nos moldes da TV Cultura ou da PBS, uma programação construtiva, voltada aos valores da nossa cultura, para nossa gente, blábláblá.
Só que esta TV já existe, e a gente a trata como se ela fosse o Senhor Madruga (você sabe muito bem quem é o Senhor Madruga).
Pense de novo sobre o que significa a TVE. Não o que ela É atualmente, mas o que ela AINDA PODE SER para uma sociedade inteira.
No Rio Grande do Sul, tem muita coisa pra se tirar da tomada antes da TVE.

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