Por Janaína Rolim Ufa! Depois de 12 dias sem energia elétrica devido aos estragos do furacão Wilma posso contar a minha experiência e as dificuldades que não foram amplamente divulgadas pela mídia americana e internacional. A impressa publicou que muitas pessoas ficaram sem eletricidade e tiveram prejuízos no Sul da Flórida, mas não contou detalhadamente o caos. A realidade foi de sofrimento e situações dignas de certas regiões de países de Terceiro Mundo.
No meu caso, a falta de energia elétrica foi a pior dificuldade. Foram “banhos de canequinha”, comida enlatada, lanterna e velas para iluminação. Além, claro, da inconveniência da falta de acesso a computador, televisão, rádio, ar-condicionado (que com o calor de Miami é uma necessidade e não um artigo dispensável), e todos os eletro-eletrônicos que tornam a vida mais eficaz.
Nos primeiros dias a situação estava difícil, porém suportável. Tinha me preparado com alguns mantimentos essenciais para momentos de falta de energia. Porém, não esperava que seria tanto tempo sem eletricidade. Após o quinto dia a situação começou a se tornar irritante. Tinham poucos estabelecimentos comerciais abertos. Havia escassez de água potável, gelo, pilhas, gás para fogareiro, entre outros.
Neste momento, eu estava sem carro. Mas também não adiantaria muito ter um automóvel, pois a gasolina se tornou escassa no Sul da Flórida. Houve pessoas que chegaram a ficar quatro horas esperando para abastecer. Nos primeiros dias após o furacão, muitos postos de gasolina não abriram por falta de energia para as bombas. Com a chegada dos geradores o problema foi resolvido. Em seguida, a dificuldade era a falta de gasolina para a enorme demanda.
Pela noite, a escuridão estava assustadora. Com os fortes ventos do Wilma, as sinaleiras foram para o chão. O trânsito ficou um caos. Carros de polícia espelhados por toda a cidade. O som das sirenes de bombeiros e ambulâncias passou a ser constante.
Foi possível ver na cara das pessoas a indignação. Muitos sequer tinham água. Neste momento, existem pessoas ainda sem energia elétrica, alguns com previsão de retorno somente para o Natal. Um garçom que nos atendeu em um restaurante contou que há duas semanas tinham restaurado a rede elétrica na casa dele ainda devido aos estragos do katrina, quando então ficou sem energia pelos danos do Wilma. Pelo menos ele tem emprego…
Muitas pessoas ficaram desempregadas. Tenho uma amiga americana que trabalha em um clube de golfe que foi destruído pelo furacão, agora ela está sem emprego. Tanto as pessoas sem eletricidade, quanto as desempregadas devido ao Wilma estão recebendo auxílio do governo através do Fema (Federal Emergency Management Agency).
O serviço de abastecimento à população prestado pelo órgão federal sofreu mais uma vez críticas.
Não fui uma das pessoas a depender da ajuda do Fema. A mãe do meu namorado mora em Orlando e com o auxílio dela fiz algumas compras por lá. Durante o percurso de quatro horas (368 km), vi enorme filas de caminhões de companhia de energia elétrica vindos de outras localidades para ajudar na restauração das redes elétricas no Sul da Flórida.
Consegui em Orlando alguns mantimentos, entre eles, pilhas para pelo menos escutar as notícias pelas emissoras de rádio locais. Foi quando ouvi a informação de que após uma semana e meia, o número de pessoas sem energia havia reduzido de 6 milhões para 260 mil. Foi uma boa notícia. Mas a grande novidade mesmo veio no dia seguinte, quando entrei para a estatística daqueles que voltaram a utilizar eletricidade. Hoje a minha maior alegria foi ter voltado a tomar banho quente no Primeiro Mundo, quem diria…

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