Cinco Perguntas

Cinco perguntas para Débora Gallas

Jornalista integra o Grupo de Pesquisa de Jornalismo Ambiental, vinculado à Ufrgs e ao CNPq

1 – Quem é você, de onde vem e o que faz?

Sou Débora Gallas, jornalista e doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Sou pesquisadora no Grupo de Pesquisa de Jornalismo Ambiental, vinculado à Ufrgs e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e associada ao Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS).

Sou natural de Porto Alegre, e devo toda minha formação à educação pública, o que motivou meu interesse em pesquisar, durante o doutorado, as contribuições do diálogo entre Jornalismo e Educação para a conscientização das pessoas, especialmente sobre temas ambientais. Há mais de 10 anos tenho ministrado oficinas de Comunicação para jovens e adultos, e no doutorado meu intuito foi investigar as aproximações entre o Jornalismo Ambiental e o campo da educomunicação a partir de uma experiência com estudantes do ensino médio.

No momento, também atuo na agência Bori, colaborando com a disseminação de estudos científicos explicados em linguagem jornalística. Então, gosto de trabalhar sempre tentando aproximar o Jornalismo da sociedade, especialmente na área da Comunicação.

2 – Por que você escolheu o Jornalismo?

Como muitos colegas, escolhi o Jornalismo com base no gosto pela leitura e escrita. Encantava-me a ideia de todo dia poder contar uma nova história para as pessoas e contribuir de alguma forma para a compreensão sobre a nossa realidade. Mas demorei um pouco para encontrar meu foco durante a graduação e ter certeza da minha escolha. Já perto da formatura, estudei Jornalismo Ambiental com a professora Ilza Girardi, e foi aí que o Jornalismo fez mais sentido para mim.

Passei a fazer parte do Núcleo de Comunicação Comunitária da Ufrgs, coordenado por ela. Fizemos diversas formações de comunicadores de rádios comunitárias e professores de escolas públicas em projetos de extensão. Mais tarde, também fui oficineira do programa Mais Educação em escolas municipais de Porto Alegre, sempre tentando estimular os estudantes a aprenderem um pouco sobre nossas linguagens e processos para comunicar temas ambientais com consciência crítica para a comunidade.

Já no Núcleo de Ecojornalistas, ajudei a organizar cursos para jornalistas e estudantes de Jornalismo interessados em cobrir questões como mudanças climáticas, agrotóxicos e, mais recentemente, temas indígenas. Também participo da organização das Terças Ecológicas, projeto que o NEJ-RS realiza desde os anos 90 para abordar temas relevantes ao debate ambiental com convidados especiais de várias expertises, como jornalistas, pesquisadores e representantes da sociedade civil. Então, acho que acabei gostando tanto do Jornalismo que percebi que meu conhecimento poderia ser compartilhado com pessoas de dentro e fora da nossa área – seja para as pessoas leigas entenderem a importância da profissão orientando nossa vida em sociedade, seja para nossos colegas descobrirem novas formas de estreitar a relação com o público.

3 – Você foi uma das organizadoras do minimanual ‘Como cobrir temas indígenas’. Na sua opinião, porque esse conteúdo é necessário?

Para quem trabalha ou pesquisa temas ambientais, é evidente o quanto devemos aos indígenas pelo que ainda resta dos nossos biomas. Os povos originários estão há 523 anos em luta para defender seu modo de vida, que está intimamente ligado ao contexto ambiental e à relação com seres não humanos. O acesso aos bens naturais, a águas limpas e ao alimento que vem direto da terra garante a sobrevivência e, somente por isso, os indígenas deveriam ter esse direito assegurado. Mas a contribuição dos saberes indígenas é tão imensa que impacta diretamente a vida de todos os outros cidadãos planetários. Os territórios indígenas são bastiões de resistência às atividades de exploração da natureza, que estão alimentando a emergência climática e contribuindo para crises sanitárias como as epidemias e pandemias. Esses povos estão na linha de frente contendo a destruição do nosso modelo de sociedade. 

Essas informações não são novas, mas percebemos que essa relação ainda não é reconhecida ou valorizada como deveria, até mesmo por jornalistas. Para mim, essa compreensão e essa sensibilidade estão em construção há muitos anos, pois confrontam a perspectiva eurocêntrica do mundo, dentro da qual a maioria de nós ainda é educado. Quando perpetuamos estereótipos ou visões equivocadas sobre a cultura e o pensamento das pessoas indígenas, estamos falhando como sociedade, contribuindo para alimentar a violência que esses povos sofrem há cinco séculos. Então, não tem como falarmos de cuidar do meio ambiente sem antes pensar sobre como temos tratado os povos indígenas, que estão desde sempre nessa luta.

Importante ressaltar que o minimanual, que organizei com a amiga e colega Eliege Fante, é uma sistematização do conhecimento compartilhado pelos jornalistas e comunicadores indígenas Ingrid Sateré Mawé, Raquel Paris, Tarisson Nawa e Yago Kaingang em curso para jornalistas não indígenas que organizamos no Núcleo de Ecojornalistas com o apoio da Fundação Luterana de Diaconia. Assim como o minimanual, o curso teve acesso aberto e segue disponível em nosso canal do YouTube, pois acreditamos que esses saberes devem chegar ao máximo de pessoas possível.

4 – Qual é a melhor forma da Comunicação ser uma aliada do Meio Ambiente?

A Comunicação, e o Jornalismo em específico têm potencial de transformação social. Esse potencial caminha de mãos dadas com a nossa responsabilidade sobre as palavras que escolhemos e sobre quais vozes aparecem nos discursos que produzimos. Acho que um primeiro passo para essa aliança entre Comunicação e meio ambiente é a gente se perguntar se nosso trabalho contribui para diversificar as vozes e perspectivas que circulam na sociedade. Esse é um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental descrito por estudos do nosso grupo de pesquisa. Por exemplo: se eu ouço sempre as mesmas pessoas, aquelas que detêm o poder e representam um pensamento hegemônico, como posso questionar a ordem das coisas e chegar às alternativas de sociedade de que tanto precisamos para enfrentar a emergência climática e a lógica da exploração da natureza acima de tudo?

Penso que seja urgente atentarmos para o conhecimento que está fora dos círculos hegemônicos. Povos e comunidades tradicionais, moradores das periferias, todos têm muito a nos ensinar. E, ao mesmo tempo, são as populações que mais sofrem com o desmonte de políticas públicas sociais e ambientais e que estão mais suscetíveis aos riscos climáticos. Como uma pessoa branca, que teve a oportunidade de realizar uma formação universitária, eu me sinto na obrigação de me inteirar da luta dessas pessoas contra o racismo ambiental e contribuir para visibilizar seus saberes. Acho que este é um aprendizado permanente para nós, jornalistas e comunicadores.

5 – Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?

Procuro sempre me envolver em projetos e iniciativas em que eu possa articular o Jornalismo com as áreas de educação e meio ambiente. É muito gratificante contribuir com a formação de outras pessoas e impactar de alguma forma o conhecimento que circula na sociedade. Neste sentido, entusiasmam-me possibilidades como ministrar aulas e oficinas para jornalistas sobre temas relevantes para a cobertura socioambiental, produzir materiais que facilitem o trabalho de jornalistas e comunicadores, dialogar com pessoas de dentro e fora da área da Comunicação. Espero continuar trilhando esse caminho!

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