1. Quem é você, de onde vem e o que faz?
Meu nome é Emanuel Neves, sou porto-alegrense, formado em Jornalismo pela PUCRS e com pós-graduação em Marketing Esportivo pelo Senac. Em 2018, a convite dos meus amigos Ricardo Lacerda e Leonardo Pujol, tornei-me sócio da República – Conteúdo & Estratégia. Sou autor do livro ‘A Noite das Asas Vermelhas – Crônicas Coloradas’, publicado pela editora Besouro Box, em 2008. Também tenho experiências como roteirista, locutor e dublador.
2. Como foi a escolha pelo Jornalismo?
Surgiu por uma conjunção de fatores. A paixão pelo Inter tem muito a ver com isso. Quando menino, eu morava longe do Beira-Rio. E não tinha quem me levasse aos jogos. Por essa limitação, o estádio se configurava em uma Canaã particular aos meus olhos de guri. Houve um sábado dos anos 1980 em que o Inter foi enfrentar o Sport Recife, em Pernambuco. Eu acompanhava o pré-jogo pelos 720 AM da velha Guaíba – e notei que o locutor e os repórteres eram os mesmos que haviam transmitido a partida da semana anterior, no Maracanã. Ou seja, o trabalho deles era seguir o Inter por toda parte. Com nove anos, depreendi que não poderia existir uma profissão melhor do que aquela.
Pouco depois, numa tarde vadia dos meus 12 anos, eu dormitava afundado no sofá enquanto esperava o ‘Mágico de Oz’ começar na ‘Sessão da Tarde’. Até que a Telefunken se desligou. Faltara luz. Catatônico, fiquei encarando aquele retângulo cinza e mudo por muitos minutos. Meus olhos correram pelas lombadas dos livros na prateleira da sala. E um título me chamou a atenção. Era o ‘Analista de Bagé’, do Luis Fernando Verissimo.
Abri em uma página aleatória e li a história de um homem que adotara um nariz postiço como parte da sua indumentária. Aquelas máscaras de brinquedo, com um óculos, um nariz e um bigode. Ele nunca mais a tirou, mesmo diante das súplicas da família. Perdeu a mulher, os filhos se afastaram, amigos o renegaram, o emprego se foi. Mas o homem seguiu convicto, com seu nariz de Groucho Marx. Era um absurdo completo. E era genial, da primeira à última linha. Quando fechei o livro, Dorothy já tinha voltado para o Kansas e minha avó estava dando boa noite ao Cid Moreira.
Verissimo me mostrou a magia do texto naquela tarde. Sonhei encontrá-lo no mundo das minhas próprias palavras. Por óbvio, jamais o achei. Também não me tornei repórter de campo. Ainda assim, décadas depois, as contas que consigo manter em dia são pagas com o que ganho juntando letras em uma tela em branco – ou eventualmente falando em um microfone.
3. A República Conteúdo e Estratégia assinou os roteiros que conduziram os mestres de cerimônia dos seis palcos principais do South Summit Brazil. Como foi desenvolver este trabalho e quais os principais desafios e oportunidades?
É uma experiência muito legal. E também uma responsabilidade tremenda. Na organização de um evento como esse, a estrutura física funciona como os ossos e os músculos que mantêm tudo de pé. Já os roteiristas são os pulmões. É o texto que dá fôlego para os mestres de cerimônia, determina o tempo dos palcos, o respiro entre cada sessão. Precisa ser fluído e ritmado, informativo e claro, conciso e charmoso. O South Summit tem o inglês como idioma padrão nos palcos, o que acresce uma camada extra de desafio.
Já são duas edições consecutivas à frente desse trabalho, com envolvimento intenso da equipe em uma empreitada que se inicia muito antes da plataforma ser montada no Cais Mauá. A vinculação da República ao maior encontro de inovação da América Latina é um fator que confere ainda mais peso ao nosso portfólio – e abre possibilidades de novas frentes.
Vale mencionar a boa parceria com o time do South Summit e, acima de tudo, a excelência do Marcelo Bacchin na condução da produção artística. Essa sinergia contribuiu muito para a qualidade da nossa entrega.
4. Além do Jornalismo, você atua no Marketing, na Literatura e na produção de conteúdo. Essa decisão foi uma escolha pessoal ou uma resposta às transformações do mercado da Comunicação?
Um misto. A Literatura não é uma escolha de mercado, mas um pendor da minha geração de jornalistas. Muitos de nós nutríamos isso como utopia juvenil, mesmo que de maneira inconfessa. Sou da turma de 2002, praticamente escrevíamos em papiros na Famecos. Não saberia dizer se a Literatura ainda move estudantes para as faculdades de Comunicação como no passado. Acredito que sim. Mas essa nova leva de profissionais já surge dentro do contexto da produção de conteúdo, que é um esgarçamento dos limites do jornalismo – nem sempre saudável, mas estabelecido e inexorável na atualidade. Aqui, a resiliência se impõe como condição para seguirmos vivos no mercado.
O Marketing, por sua vez, é fundamental para quem empreende no nosso setor. No caso da República, em que a estratégia é um braço do serviço oferecido, essa valência nos ajuda a desenhar projetos mais aprofundados, verticais de conteúdo com múltiplas entregas e abordagens em 365º dos produtos. Os fundamentos do Marketing também compõem o filtro que usamos para traduzir a demanda do cliente. Ele nem sempre chega até nós com clareza do que realmente busca – ou da melhor forma de embalar a sua mensagem. Assim, conseguimos alinhar esse intento aos objetivos de negócio de nossos parceiros, da maneira mais eficiente e completa possível.
5. Quais são os seus planos para daqui a cinco anos?
Vivemos em um exercício permanente de aprimoramento do nosso modelo de negócio, em razão dos movimentos do mercado. A República não nega a importância cada vez mais evidente da inteligência artificial no dia a dia da produção de conteúdo. Temos a IA como um facilitador para as primeiras etapas de alguns processos. Mas acreditamos, sobretudo, no que chamamos de Inteligência Artesanal – essa capacidade exclusivamente humana de interpretar demandas e customizar entregas.
Por isso, estamos direcionando nossa atuação para trabalhos de maior fôlego, como revistas, livros e relatórios corporativos. Entendemos que, ao longo dos próximos cinco anos, o mercado deve passar por uma saturação do conteúdo pasteurizado. E isso deve fazer com que as empresas reservem seus investimentos para materiais feitos sob medida, como forma de associar um valor real às suas marcas. É para esse horizonte que pretendemos avançar, reforçando a autoridade que construímos ao longo dos 14 anos de atuação da agência.

