Busca pelo pertencimento é o que impulsiona clubes de leitura

Painel da Semana Caldeira reuniu Tag Livros, Clube de Literatura Clássica e Fernanda Pandolfi para conversar sobre a experiência de leituras em grupo

Fernanda Pandolfi, Luiza Fresina, Laura Zuanazzi e Felipe Pimentel - Crédito: Coletiva

Na tarde desta segunda-feira, o espaço memorial A.J. Renner, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre, recebeu o painel ‘Por que ler em grupo? Clubes de leitura, formação de público e novos modelos para o livro para o Brasil’. Mediada por Felipe Pimentel, a conversa reuniu Laura Zuanazzi, da Tag Livros, Luiza Fresina, do Clube de Literatura Clássica, e Fernanda Pandolfi, escritora e mediadora literária do Clube do Livro que leva seu nome.

A palavra que guiou o encontro foi “pertencimento”. A partir de diversos questionamentos, as convidadas relacionaram a ascensão de clubes literários com o desejo da população de restabelecer veículos e relações interpessoais além do digital. Uma das possíveis motivações apontadas, é uma espécie de “rebote do distanciamento” causado a partir da pandemia de Covid-19.

“As pesquisas mostram que as pessoas se sentem cada vez mais solitárias e mais afastadas umas das outras, com muita disponibilidade de interação virtual e pouca disponibilidade de interação no corredor. Eu entendo que a literatura é uma forma de aproximar as pessoas por interesses comuns, uma forma da gente entender o que conversar, saber como estar próximo”, defendeu Fernanda Pandolfi.

Mesmo a partir de diferentes perspectivas, entre clubes que focam em diferentes nichos literários, as painelistas compartilham a opinião. “E a gente está realmente levando o ser humano a uma exaustão por hábitos culturais que a gente foi criando a partir da tecnologia. Então, o livro está vindo com muita força. E a explicação geralmente é essa: eu estou tentando reequilibrar a atenção, a capacidade de foco e ter um momento que é quase um ritual”, disse Laura Zuanazzi.

Outra experiência comum entre as convidadas é a uma predisposição maior por parte das mulheres em compartilhar opiniões sobre as obras lidas. Na Tag e no Clube de Fernanda, inclusive, há uma presença expressivamente maior de mulheres em comparação aos homens, chegando a percentuais de 80% de público feminino.

“As mulheres são muito mais dispostas a se abrir, a ter esse momento vulnerável do clube de leitura, de se emocionar com o livro, de falar o porquê se conectou. Então, gera esse momento de troca de conexão que os homens estão menos dispostos a fazer, argumentou Laura.

Sobre as leituras de clássicos, muitas vezes vistas pela população como mais difíceis, Luiza Fresina enfatizou que o clube de leitura torna o gênero mais acessível. Além da curadoria das obras, o Clube de Literatura Clássica oferece materiais de apoio para tornar a experiência de leitura mais agradável.

“Então, a gente traz a vida do autor ou da autora, como que ele viveu, às vezes a família dele, o contexto dele, toda a biografia, em que momento ele escreveu aquele livro. Então, a gente contextualiza muito o leitor para ele já chegar na leitura e saber o que esperar. O estilo que ele vai esperar, a profundidade. Tudo tentando fazer com que a pessoa se ambiente e consiga ler com uma fluidez muito mais tranquila”, explicou Luiza.

Ao fim da conversa, as convidadas abordaram a literatura nacional, e concordaram que a literatura brasileira oferece qualidade, mas também reflexões a respeito de uma realidade compartilhada. “Essa riqueza que a gente tem de contexto, de situações só o Brasil proporciona aquela coisa que a gente conhece”, disse Luiza.

“Eu acho que tem uma uma alegria de escritores brasileiros contemporâneos que é se identificar mas também se questionar, da gente ter cultura, da gente ter as coisas nossas que são muito próprias, mas tem também as críticas que a gente tem. Então é uma mistura de tudo que tem de bom e tudo que a gente tem que criticar”, complementou Laura.


A equipe de Coletiva.net está presente na Semana Caldeira, realizada de 21 a 25 de setembro, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Durante a cobertura, participam as jornalistas Luma Costa, Márcia Christofoli, Márcia Dihl, Patrícia Lapuente Sarah Acosta, as assistentes de Redação Ana Rosa Scheibe e Ronise Garcia, bem como a social media Anie Cristine Gabriel, que produzem matérias, entrevistas e bastidores diretamente do local. O público pode acompanhar a cobertura completa no portal Coletiva.net, com repercussões nas redes sociais — incluindo Facebook, Threads e X — e conteúdos exclusivos no Instagram.

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