
Em uma trajetória que se confunde com a história dos principais festivais de cinema do Brasil, a jornalista Rosário Caetano completa, nesta sexta-feira, 22, 50 anos de Jornalismo. Aos 71 anos, ela também chega à sua 48ª cobertura do Festival de Cinema de Gramado, evento que acompanha desde 1979. Reconhecida no meio, Rosário, que trabalha na Revista Cinema, é seguidamente citada por atores, diretores e produtores nos debates que ocorrem após a exibição dos filmes.
A relação com o Cinema, no entanto, começou muito antes da profissão. Filha de um proprietário de cinema, Rosário cresceu dentro das salas de exibição. O pai, junto com um irmão, construiu o cinema de Coromandel. Desde os três anos de idade, passou a viver cercada por filmes, em uma relação que, segundo ela, acabou se transformando em uma grande paixão.
Uma imprensa cultural em transformação
Com cinco décadas de profissão e experiência em dezenas de festivais, Rosário testemunhou profundas mudanças na cobertura cultural brasileira. Para ela, houve um período em que a imprensa especializada viveu um momento de grande prestígio, com veículos chegando a enviar repórteres e críticos exclusivamente para acompanhar os eventos.
“Já tivemos a melhor imprensa cultural do Brasil, uma das melhores da América Latina”, comentou. Segundo a jornalista, as restrições financeiras enfrentadas atualmente pelos veículos reduziram o espaço destinado à cultura e dificultaram a presença de profissionais especializados nos festivais.
Apesar disso, Gramado ainda mantém uma posição de destaque. Para Rosário, o evento continua sendo “a vitrine mais reluzente do cinema brasileiro”, especialmente pela capacidade de reunir repercussão, glamour, atores conhecidos e novos talentos.
Ela também chama atenção para a multiplicação dos festivais no país. Se, no passado, Gramado e Brasília, ao lado da Jornada de Cinema da Bahia, estavam entre os principais eventos do circuito nacional, hoje o número de festivais cresceu exponencialmente.
Segundo Rosário, essa expansão acompanha também a dimensão territorial do Brasil. Pequenos municípios, muitas vezes sem salas de cinema, passaram a criar festivais em tendas e estruturas temporárias. “É um panorama novo, é um mundo novo”, resumiu.
Debates são o coração do festival
Entre tudo o que o acompanhou ao longo dos anos nos festivais, Rosário aponta os debates do festival realizado na Serra Gaúcha como uma de suas experiências favoritas. Ela destaca especialmente a participação do público, que, segundo ela, ocupa uma parte significativa da plateia e se envolve diretamente nas discussões. “Eu amo os debates de Gramado. São, eu te digo com toda sinceridade, os mais concorridos do País”, destacou.
A Jornalista conta que duas situações desta edição já a marcaram. Uma delas aconteceu no debate de ‘Antártida’, com o depoimento do ator Adélio Lima, que se emocionou ao falar da dificuldade em interpretar o papel de um homem violento e que odiava mulheres.
A outra ocorreu após a exibição de ‘Feito Pipa’, quando uma menina de apenas 12 anos participou da conversa e chamou a atenção pela clareza e maturidade de suas intervenções. Segundo Rosário, a menina falou sobre os personagens do filme e também analisou o comportamento de um grupo que pratica bullying contra o protagonista. Ao final do debate, voltou a pedir a palavra e foi aplaudida pelo público. “Ela brilhou”, enfatizou.
Destaques da edição
Entre os filmes já assistidos nesta edição de Gramado, Rosário escolheu dois para recomendar ao público: ‘Feito Pipa’ e ‘O Projeto’. Sobre o longa cearense, destaca o elenco e o fato de ser um filme voltado ao público jovem, além de sua passagem premiada por Berlim. Já segundo chamou sua atenção pela abordagem que considera ousada e pela complexidade com que trata a questão racial. “Esses dois filmes já valeram a minha vinda. Ainda tem mais três dias pela frente.”
Dicas para futuros jornalistas
Para quem pretende seguir pelo Jornalismo de Cinema e Cultura, Rosário aponta três elementos fundamentais: paixão pelo cinema, curiosidade e disposição para refletir. Ela defende que o jornalista precisa assistir a muitos filmes e ampliar constantemente seu repertório, conhecendo não apenas as grandes produções internacionais, mas também cinematografias africanas, asiáticas, brasileiras e hispano-americanas.
Rosário também ressalta a importância de acompanhar os debates e manter um olhar aberto para diferentes tipos de produção. Para ela, o jornalista cultural não pode se limitar a um único perfil de cinema nem desprezar o diálogo entre o chamado cinema de arte e o grande público. “Não pode ser só gostar de filme cabeça. A gente tem que ter um gosto mais aberto, mais plural”, concluiu.

