Edison Vara fala sobre quase três décadas de cobertura do Festival de Cinema

Fotógrafo conversou com Coletiva.net sobre as transformações do setor e a consolidação do evento

Muito antes das fotos serem enviadas em segundos para redações e ou usadas em mídias sociais, Edison Vara já caminhava pelas ruas de Gramado, no Festival de Cinema, em busca do momento certo. Desde 1997 acompanhando o evento, o fotógrafo viu ele se consolidar, a tecnologia transformar todo o sistema de entrega e distribuição, e a exclusividade das imagens dar lugar à instantaneidade digital. A equipe de Coletiva.net conversou com o responsável pela cobertura fotográfica sobre as diferentes nuances das últimas três décadas.

Ao longo dos anos, Edison registrou atores, diretores, premiações, tapetes vermelhos e bastidores. Mas, para ele, o trabalho no festival mudou de formato. Se antes a cobertura permitia mais tempo para observar e construir imagens, hoje o ritmo é determinado pela velocidade da internet e pela necessidade de publicação imediata. A mudança tecnológica alterou não apenas a forma de produzir imagens, mas também o conceito de exclusividade. Nos primeiros anos de cobertura, conseguir uma fotografia única era resultado de insistência, relacionamento e iniciativa.

Nas lentes e na memória

Uma das histórias que recordou durante o papo com Coletiva.net, aconteceu em 1988, quando buscou registrar a atriz italiana Eva Grimaldi durante sua passagem por Gramado. Ao criar uma relação de confiança com o assessor de imprensa dela, conseguiu acessos que outros colegas não tiveram e produziu imagens exclusivas. Segundo, esse tipo de oportunidade era uma das marcas da fotografia de festivais naquele período. 

Também comentou que, atualmente, esses momentos de ensaios mais espontâneos com os atores, escritores e etc, ficaram mais escassos. Mesmo com a bagagem e os relacionamentos que o tempo e a sua iniciativa trouxeram, hoje, levar um ator para os corredores de um hotel, ou até para a rua, é quase inviável. E isso se dá pela democratização da fotografia digital, com os celulares, por exemplo. O resultado disso é não ter mais a possibilidade de um olhar exclusivo. 

A tecnologia, antes, também impunha limites que hoje parecem distantes. Edison lembra das primeiras câmeras digitais da Fuji, que permitiam um número reduzido de registros antes de exigir a transferência dos arquivos. Mesmo diante dessas restrições, participou de um marco da imprensa gaúcha: a publicação da primeira fotografia digital em um veículo de comunicação do Rio Grande do Sul.

O processo atual

De acordo com Edison, a cobertura atual do festival funciona em tempo real. Ou seja, enquanto tudo acontece, as imagens são feitas, baixadas, publicadas e distribuídas quase que ao mesmo tempo. “Nosso material fotográfico é todo online. Eu fotografo tudo que acontece. Os atores estão no tapete vermelho, no palco, nas premiações… E eu também. Eu registro lá, enquanto isso, aqui na sala de imprensa o editor já recebe o que envio recém-fotografado para publicação.”

Apesar das transformações, Edison acredita que a essência da profissão permanece a mesma. “A primeira coisa, 50% digamos, é a vontade de querer estar, de querer fazer. Os outros 50% são a busca pela boa foto”, defende o fotógrafo.

Daqui pra frente

Ao refletir sobre o futuro da profissão, ele demonstra preocupação com o avanço da inteligência artificial. Embora acompanhe as novas tecnologias e estude suas possibilidades, mantém uma posição firme em relação aos limites éticos da fotografia jornalística. “A IA me assusta muito, sim. Estou até estudando sobre o tem, mas não uso. Eu sou da fotografia tradicional, no máximo, faço uns cortes aqui, uns ajustes de luz ali.”

No Fotojornalismo, diz que existe uma fronteira que não pode ser ultrapassada: “Nunca acrescentar algo ou tirar. No Fotojornalismo, não se mexe”. A defesa da integridade da imagem está ligada à sua visão sobre o papel da fotografia na narrativa jornalística. Segundo ele, uma imagem pode transmitir informações e emoções de forma tão poderosa quanto um texto. “Fotojornalismo é maravilhoso. A fotografia pode falar mais que o texto, sem diminuir a criação textual. Mas o momento exclusivo fala tudo.” E aos futuros fotógrafos e fotojornalistas, ele ensina: “Se dediquem. Não é só a boa foto, é também a responsabilidade”. 

Quase três décadas depois de sua primeira cobertura fo Festival de Cinema de Gramado, Edison continua percorrendo os mesmos espaços e ruas da cidade serrana. As câmeras mudaram, os métodos de trabalho agilizaram e a velocidade da informação se transformou radicalmente. O que não mudou nesse anos todos foi a busca pelo instante que resume uma história inteira em um único quadro. Uma busca que, para ele, continua sendo a essência da fotografia.

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