
Em um momento em que a inteligência artificial amplia a capacidade de criação e distribuição de conteúdo em escala global, a autenticidade desponta como um dos ativos mais valiosos para marcas, criadores e artistas. A avaliação foi compartilhada pela vice-presidente do Instagram, Tessa Lyons, e pelo artista e arquiteto norte-americano Daniel Arsham durante o painel ‘The Evolution of Creativity’, realizado na tarde desta terça-feira, 23, no Cannes Lions International Festival of Creativity 2026.
A conversa integrou a programação oficial do festival e abordou temas como o futuro da criatividade, o impacto das ferramentas de inteligência artificial, a evolução dos algoritmos de recomendação e a crescente busca do público por conteúdos considerados genuínos. Para os participantes, a abundância criativa proporcionada pela tecnologia torna ainda mais valiosas as conexões humanas autênticas.
Criatividade sem intermediários
Ao relembrar momentos de transformação na história da arte, Tessa Lyons destacou que as novas tecnologias sempre tiveram papel fundamental na ampliação do acesso à criação. A executiva citou o surgimento dos tubos metálicos de tinta, no século XIX, que permitiram aos impressionistas romperem com os modelos tradicionais de produção artística.
Segundo ela, smartphones e redes sociais provocaram uma ruptura semelhante ao democratizar os meios de criação e distribuição. Hoje, qualquer pessoa pode produzir conteúdo, encontrar audiência e construir relevância sem depender de intermediários.
A executiva observou que essa realidade criou um cenário de abundância criativa sem precedentes. Ao mesmo tempo, trouxe um novo desafio para criadores e marcas: destacar-se em meio ao enorme volume de conteúdos disponíveis.
O ativo mais escasso
Para Lyons, justamente por existir tanta oferta de conteúdo, a autenticidade passou a ser um diferencial competitivo. Mais do que produções impecáveis ou visualmente sofisticadas, o público busca experiências que transmitam honestidade e credibilidade.
A executiva afirmou que os usuários valorizam cada vez mais conteúdos que reflitam pessoas reais, histórias verdadeiras e conexões genuínas. Na avaliação dela, esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos.
Arte, cultura e negócios
Conhecido mundialmente por suas obras que transformam objetos contemporâneos em relíquias de um futuro imaginário, Daniel Arsham abordou a relação entre arte e mercado. O artista defendeu as parcerias entre criadores e marcas como uma forma legítima de ampliar o alcance dos projetos e financiar novas iniciativas.
Segundo Arsham, as colaborações mais bem-sucedidas acontecem quando existe alinhamento entre os valores da marca e a linguagem criativa do artista. Quando essa conexão não é genuína, o resultado tende a parecer artificial para o público. O artista afirmou ainda que essas parcerias ajudam a levar a arte para além dos círculos tradicionais do setor, permitindo o contato com novas audiências e diferentes contextos culturais.
Inteligência artificial e o retorno ao humano
A inteligência artificial ocupou parte importante do debate. Arsham revelou que utiliza ferramentas generativas em seu estúdio para desenvolver projetos arquitetônicos, testar conceitos e visualizar exposições antes da execução física.
Apesar das vantagens oferecidas pela tecnologia, ele acredita que a popularização da IA deve estimular uma valorização ainda maior do trabalho manual. Para o artista, elementos como imperfeição, espontaneidade e expressão individual continuarão sendo diferenciais exclusivamente humanos. Segundo Arsham, a tecnologia amplia possibilidades criativas, mas não substitui a sensibilidade construída pela experiência humana.
Algoritmos mais transparentes
Tessa Lyons também apresentou iniciativas do Instagram voltadas à evolução da experiência dos usuários. A executiva explicou que a plataforma trabalha para tornar seus sistemas de recomendação mais transparentes e oferecer maior controle sobre os conteúdos exibidos.
A proposta é permitir que as pessoas compreendam melhor por que determinados conteúdos aparecem em seus feeds e possam influenciar diretamente essas recomendações. A medida busca reduzir a percepção de que os algoritmos funcionam como mecanismos inacessíveis. Além disso, o Instagram vem desenvolvendo recursos para estimular criadores a experimentarem formatos menos perfeccionistas e mais espontâneos, reduzindo a pressão pela estética idealizada das redes sociais.
Aprender com os erros
Ao encerrar a conversa, Daniel Arsham compartilhou uma mensagem voltada aos jovens profissionais da indústria criativa. O artista defendeu que o fracasso faz parte do processo de construção de qualquer trajetória relevante.
Ele relembrou projetos que não saíram como planejado, exposições que precisaram ser reformuladas e iniciativas que nunca chegaram ao público. Na sua avaliação, são justamente esses desvios que ajudam a construir os caminhos para futuras conquistas.
Entre 22 e 26 de julho, a reportagem do Coletiva.net, em parceria com a Brivia, traz notícias, análises, drops e conteúdos exclusivos sobre principais debates, personagens e tendências do Festival Internacional de Criatividade de Cannes 2026, o Cannes Lions. Por meio dos relatos de Fábio Rios, diretor de Marketing da Brivia, os leitores acompanharão os bastidores e os principais insights de um dos mais importantes encontros globais da indústria criativa.

