
O jornalista Thiago Suman e seu gêmeo Guilherme vivem um momento especial no 54º Festival de Cinema de Gramado. Como roteirista, Thiago divide a autoria de ‘Terra Bruta’ com o irmão, que é cineasta e também assina a direção do longa ao lado de Allan Riggs. A participação marca uma espécie de reencontro com uma história iniciada há cinco anos, quando tiveram um trabalho selecionado para o festival, mas não puderam viver a experiência presencialmente.
“Em 2020, participamos com ‘Bochincho’, nosso primeiro trabalho cinematográfico. A partir dali vieram outros curtas, documentários, participações nacionais e internacionais. Mas faltava aquele gostinho de vir a Gramado. Representamos o filme na época, mas não estávamos aqui. Agora estamos vivendo essa experiência e está tudo muito legal”, destacou Thiago ao Coletiva.net.
Para Guilherme, a presença no festival tem um significado simbólico. “É uma forma de corrigir aquele início interrompido. Nosso começo no cinema seria aqui. E também é importante poder compartilhar esse momento com pessoas que estiveram conosco desde o princípio, parceiros que ajudaram a construir essa trajetória”, ressaltou.
Revisão da masculinidade
Ambientado em um universo inspirado pelo século XIX e pelas paisagens históricas do Sul do Brasil, ‘Terra Bruta’ utiliza elementos do gênero western para propor uma reflexão sobre masculinidade, violência e heranças culturais. Segundo Thiago, o filme parte justamente da linguagem tradicionalmente associada à construção do imaginário masculino para questionar seus próprios fundamentos.
“O filme usa o gênero para quebrar o gênero. Faz uma investigação sobre a masculinidade e sobre os valores que historicamente foram associados a ela. Acompanhamos um personagem que vai revisitando esses conceitos e repensando aquilo que a sociedade naturalizou ao longo do tempo”, explicou.
O longa é resultado de um trabalho coletivo entre os irmãos e Allan Riggs, que também assina o roteiro. Para Thiago, o fato de três homens heterossexuais conduzirem essa reflexão amplia o debate sobre os padrões de comportamento historicamente impostos. A recepção do público em Gramado foi um dos pontos que mais emocionou a equipe. “Ver a sensibilidade das pessoas durante a exibição foi muito bonito. Foi a grande resposta que o filme poderia receber”, comemorou.
Arte como ferramenta de transformação
Guilherme destaca que a narrativa também aborda os traumas masculinos e a forma como eles acabam sendo reproduzidos ao longo das gerações. “Muitos desses traumas se naturalizam e se transformam em violência, seja ela simbólica ou física. O nosso protagonista precisa romper com esse ciclo, e essa é uma reflexão que também fazemos sobre a sociedade”, ponderou.
A reflexão proposta em ‘Terra Bruta’ dialoga com outros trabalhos desenvolvidos pelos irmãos, que transitam entre o cinema, a literatura, a música e a vida acadêmica. Segundo Guilherme, a discussão sobre o chamado “ideal do gaúcho” e suas transformações já aparece em diferentes produções da dupla. “Vivemos em um contexto marcado por números alarmantes de violência e agressão. Propor essa discussão pela arte é uma forma de refletir sobre quem somos e sobre o mundo que queremos construir”, concluiu.

