
Após dar início à mostra de Longas Metragens Nacionais no último sábado, 15, o filme ‘Feito Pipa’ foi o segundo longa de estreia do 54º Festival de Cinema de Gramado – o primeiro foi ‘Antártida’, em sessão hors concours. Na manhã deste domingo, 16, o elenco e a equipe da obra estiveram presentes no Serrazul Hotel – Rua Garibaldi, 152, Centro – para uma coletiva de imprensa. A obra é dirigida por Allan Deberton, tem roteiro de André Araújo e é auxiliada por profissionais jurídicos.
Além dos representantes da produção e da direção, atores do elenco, como Lázaro Ramos, Teca Pereira e Yuri Gomes também estiveram presentes na ocasião. No início da coletiva, mediada pelo jornalista e apresentador do festival, Roger Lerina, ele destacou seu carinho pelo projeto que apresenta a vida queer de um jovem que precisa do apoio familiar e encara as crueldades nessa trajetória impactante.
“O elenco foi escolhido a dedo. Teca já estava desde a primeira leitura de roteiro, e eu queria muito que ela vivesse essa personagem. Foram mais de 600 crianças selecionadas, fizemos uma triagem presencial e, no primeiro momento, o Yuri nem quis participar, mas conquistou com o olhar e com essa expressão madura, sincera e espontânea”, afirmou Allan Deberton.
A atriz Teca Pereira ressaltou sentir grande apreço pela forma como o diretor lidou com as questões da personagem interpretada, uma senhora cadeirante e com Alzheimer. Ela refletiu sobre a doença e sobre a perspectiva delicada que Allan Deberton trouxe para o filme, que considera um marco incrível para sua carreira.
Um pequeno talento
Um dos destaques da coletiva ficou por conta da fala da atriz mirim Beatriz Carwile, que chocou os ouvintes e causou longos aplausos por conta da sua maturidade. “Era um tabu no cinema, e eu acho muito importante a forma que eles exploraram, porque usaram parte do que já viveram, parte do que já foi o cotidiano deles. Também usaram uma criança negra, que tem traços afeminados.” A pequena ainda comemorou a forma como o filme retrata a conexão familiar especial e como o diretor abordou esses detalhes. “Ele não tentou ‘vilanizar’ a imagem do pai, mas a forma que esse pai se expressava era totalmente preconceituosa, apesar de sentir amor real pelo filho.”
Beatriz reforçou que, no filme, o pai não é representado como o que chamou de “real vilão”. E defendeu: “Uma criança quer falar o que ela quer, quer ser quem ela quer ser, mas ele não quer deixar de amar o pai dele, mesmo às vezes ele se exaltando”.
A atriz mirim encerrou sua fala sendo ovacionada pelo publico, dizendo: “O Gugu (personagem principal) tem uma conexão muito forte com a avó dele (interpretada por Teca Pereira). Tanto que, naquele momento do filme, lá no final, ela se lembra que ele cantou aquele refrão da música. Isso não é só uma conexão entre avó e neto, é uma forma muito bonita que eles exploraram de uma família que tem uma avó carinhosa, um pai que ama, mas não sabem se expressar direito”.
Cuidados necessários
O elenco infantil contou com o auxílio de uma profissional voltada ao cuidado e aprendizado das crianças em cena, Luciana Vieira, produtora de elenco e diretora-assistente do filme. Segundo ela, os atores mirins não receberam roteiro, pois precisavam ensaiar as circunstâncias e interpretar da maneira que entendiam a história.
Ainda de acordo com ela, as crianças tinham a liberdade de interpretar as cenas, trazendo um tom de naturalidade para o filme. “O contato deles com o texto acontecia somente no set de filmagem. Não existia um apego literal, eles podiam aplicar as palavras deles, tornava a cena muito viva”, relatou a produtora.
Inspiração nas próprias vivências
O roteirista de ‘Feito Pipa’, André Araújo, abordou o desejo de escrever sobre representatividade, de conseguir se ver nas telas e se identificar. Falou também sobre sua satisfação com o filme ao poder mostrar o Sertão: “Fui atravessado pelas minhas vivências e pelas minhas memórias”, contou.
André apresentou para o público o termo “arenga”, usado tradicionalmente no Nordeste, que significa conflito, briga e confusão, ou seja, “estando se arengando constantemente”. Esse termo se relaciona com a ideia central do longa, da conexão acalorada e complexa entre avó, pai e filho/neto. “Esta foi a minha relação com a minha avó, que foi quem me criou, quem eu chamo de mãe”, detalhou o roteirista.
‘Feito Pipa’ chega exclusivamente aos cinemas de todo o Brasil em 5 de novembro deste ano.

