A respiração de Odin

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Se você não vive por uma causa,

então vai morrer por nada."

(Antigo provérbio viking)

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Depois de percorrer por horas as sinuosas e aparentemente intermináveis estradas da Islândia, o Viajante se dá conta de sua estatura menor diante das forças esmagadoras da Natureza. Um sentimento que o acompanhará pelos 400 quilômetros de surpreendentes cenários do Golden Circle, uma jornada que cruza o Parque Nacional de Thingvellir, a cascata de Gullfoss, os campos de geisers em Haukadakur, crateras de vulcões ativos e inativos, grandes glaciares e imponentes muralhas de placas tectônicas. Aviso aos navegantes - a jornada é longa, mesmerizante, hipnótica. Mas há uma gratificação, se o Viajante for abençoado com a visão das Luzes do Norte - a Aurora Borealis que, os nórdicos antigos diziam ser a respiração de Odin.

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Em seu caminho, o Viajante atento se depara com lendas islandesas, como as pegadas de Erik, o Vermelho e seus vikings. Eles aportaram nas praias de areias negras do sul, apavorando os monjes irlandeses que os tentaram cristianizar. Plantaram colônias e, em seguida, aproaram os longos navios para o Oeste, guiando-se apenas pelo vago brilho da Estrela Polar.

As severas condições do Atlântico Norte devem ter sido para os vikings apenas mais um dos tantos desafios de sua existência. Os povos nórdicos sempre conviveram com um dos mais brutais climas do planeta. A velha Islândia era um lugar excepcionalmente difícil de se viver e essa época não está muito distante. Havia nevascas, inundações e tempestades que afundaram as embarcações usadas para pesca, o secular meio de sustento da população.                                                                   

Hoje, sabe-se que os vikings foram os primeiros europeus a desbravar o Atlântico Norte. Manuscritos e mapas na Universidade da Islândia, em Reykjavik, relatam com detalhes a saga dos antigos aventureiros vindos da Noruega. No entanto, nenhum documento registra seus conhecimentos de navegação ou os porquês de enfrentar o desconhecido em busca de novas terras. Nem quais instrumentos de orientação foram usados para alcançar a Groenlândia e as terras do Novo Mundo, mais de 600 anos antes de Cristóvão Colombo e John Cabot.

O veterano pescador e ex-membro da guarda costeira islandesa, Jartan Halldórsson, conheceu de perto a rudeza do mar e o pesado preço cobrado por tempestades e nevascas. Atualmente, ele se dedica a algo mais ameno, o Sægreifinn, um pequeno restaurante de frutos do mar em Reykjavik, famoso por sua sopa de mariscos. Ele diz:

"- Não somos melhores do que os outros povos. Apenas aprendemos a lição vikings de como vencer adversidades. E depois de mil anos, sabemos consertar o que dá errado e fazer do impossível, o possível."

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Ou talvez fossem inspirados nos deuses nórdicos, para os quais perder a vida em batalha garantia a passagem para o Valhalla, para onde as Valkirias conduziam os guerreiros mortos. Os escritos do século XIII registram que, quando isso acontecia, os deuses do Asgard explodiam vulcões e provocavam terremotos. Enquanto Odin, o deus maior, coloria os céus com a Aurora Borealis.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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