Benditos ovos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"O melhor remédio para se

curar uma boa ressaca."

(Lemuel Benedict, New Yor)

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O que não pode faltar no brunch dominical de nove em cada 10 newyorkers é um prato inventado, por acaso em 1894, por causa de uma ressaca. Mas poucos entre os nove nova iorquinos saberiam dizer quem foi Lemuel Benedict, o corretor aposentado, cujo feito maior foi inventar os Eggs Benedict. Recentemente, a The New Yorker relembrou como tudo começou, quando a seção Talk of the Town, especializada em lendas e folclore da Old New York, republicou uma entrevista de 1942. Ela conta como, em uma manhã de 1894, o corretor de Wall Street, Lemuel Benedict, acordou com uma tremenda ressaca. Vai ao Waldorf Hotel, e encontra um velho amigo dos bons tempos do Delmonico's, o maitre Oscar Tschirky. Ele encomenda um café da manhã reforçado para aliviar a ressaca: duas torradas feitas na manteiga, dois ovos pochês, bacon frito, queijo e uma boa colherada de sauce hollandaise.

Não se sabe se a invenção curou a ressaca de Lemuel, mas o maitre Oscar, impressionado pela originalidade do prato, o incluiu no cardápio, substituindo o bacon por presunto e as torradas por English muffins.

O sucesso foi tal que permaneceu por décadas no cardápio, graças à fama difundida por Lemuel Benedick, que dizia:

"- Não existe melhor remédio para curar uma boa ressaca."

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Como não podia deixar de ser, a nota do The New Yorker acendeu uma polêmica que durou anos, com leitores injuriados, pleiteando a autoria do prato. Um veterano de guerra exibiu o que seria a receita original dos Eggs Benedict herdada de seu falecido tio, o Comodoro E.C. Benedict.

Com uma variação - ovos duros e presunto defumado ao invés de ovos pochês e bacon frito. E nada de sauce hollandaise.

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Poucos dias depois da estória de Lemuel Benedick vir a público, os donos do restaurante Delmonico's publicaram um anúncio no Times afirmando seu pioneirismo:

"Em nossos fogões fazemos Eggs Benedict desde 1860."

Era um depoimento de peso. O Delmonico's, fundado em 1831, pelos irmãos suíços John e Peter Delmonico, reinou por 107 anos na vida social de Nova York. A casa teve um chef que ficou famoso por suas manias, Charles Ranhofer, que gostava de inventar pratos que não existiam nos cardápios de New York. Em sua cozinha que nasceram os clássicos Camarões à Newburg, Chicken à la King e as badaladas Batatinhas à Delmonico, fritas na manteiga com suco de limão.

Reza a lenda que Charles Ranhofer batizava suas criações com nomes de clientes. Segundo esta versão, os Eggs Benedict teriam surgido por volta de 1890, quando o banqueiro LeGrand Lockwood Benedict almoçava com sua mulher Sarah. Enfastiado ao ler o menu, teria indagado ao maitre:

"Vocês não têm nada de diferente para sugerir?"

O maitre foi consultar o chef Charles Ranhofer e voltou da cozinha com Eggs Benedict. O casal adorou a invenção e retornaria muitas vezes ao Delmonico's para repetir o prato. Sem estarem de ressaca.

Na verdade, trata-se de uma iguaria simples - duas fatias tostadas de pão de forma (ou brioche, segundo a versão Waldorf) bacon frito (ou presunto defumado), uma fatia de queijo, dois ovos poché e finalizado com molho holandês fresco. Na verdade, além de estar presente em cardápios tradicionais, os Eggs Benedict geralmente são mais citados do que saboreados. Alguns cronistas noviços em gastronomia admitem que nunca viram de perto o lendário prato. Como sempre, o mais encantador nas histórias são a fama e suas lendas.

Como aquela que conta da comemoração dos 70 anos do escritor Mark Twain, no Delmonico's em 1905 - ele pede um suntuoso breakfast, começando com Eggs Benedict, aos quais acrescenta um capricho,  copiado por gourmets desde então - lascas de trufa negra.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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