Bloody Mary

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 "O passado é indestrutível,

mais cedo ou tarde, ele vai voltar."

(Jorge Luis Borges)

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Abriu a tampa do baú e espiou seu interior. Sentiu o inconfundível perfume do passado. Papeis amarelados, revistas de outros tempos, um livro sem capa. Vestígios de pessoas anônimas que nunca saberia quem foram. Debaixo da papelada, um objeto, envolto em um pedaço de pano. Era um pequeno espelho redondo, do tipo que se usava nas antigas penteadeiras. Mas nunca havia visto algo assim. Talvez em estórias de magos e bruxas. O vidro era preto como a anoite e não refletia nada.

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Ficou ali, olhando por algum tempo para aquele espelho. Fascinado pela descoberta, sentiu um arrepio e uma vaga sensação de vazio. E logo, começaram as divagações: quem foi que disse que os espelhos roubam nossa alma - Allan Poe ou Henry James? Também lembrou antigas lendas, segundo as quais, os possuídos ou amaldiçoados não são refletidos nos espelhos. Mas um espelho com vidro escuro devia ter sido uma travessura de alguém do passado. Largou o espelho e pegou o livro sem capa. As folhas estavam se soltando, mas conseguiu ler o título: The Story of Bloody Mary e o nome do autor, Gail de Vos.

Também havia uma dedicatória ilegível e a data, 1913. O que parecia ser um livro de contos de terror, era a biografia de uma rainha inglesa. Não achou as páginas iniciais e começou a ler a partir da página 47, que contava sobre uma princesa Mary, filha de Henrique VIII e de Catarina de Aragão. Avançou mais algumas páginas e chegou em 1553, quando a já rainha Mary tentava reestabelecer à força o catolicismo na Inglaterra. Nas páginas adiante, descrições da feroz perseguição aos protestantes, que fez surgir a lenda da Bloody Mary, a Maria Sanguinária.

Páginas rasgadas e espalhadas em desordem. Em uma delas o autor relatava que a Rainha Mary não teria ganhado fama por mandar matar protestantes, mas pelo sinistro hábito de se banhar no sangue de moças virgens. Que fora receitado pela Bruxa de Greenwich para manter eterna sua juventude. Dizia-se que antes do sol sair, a Rainha tinha o hábito de se olhar em um grande espelho para se certificar dos efeitos do banho de sangue. O autor ainda descreve o fim da Rainha Mary, que teria morrido mais jovem e bela do que nunca. Sua morte, por decapitação a mando do rei não foi capaz de fazer cessar a maldição de seu nome. Mas não havia no livro nenhuma menção sobre o espelho que teria refletido a eterna juventude de Bloody Mary, a Maria Sanguinária.

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Devolveu o livro e as folhas soltas ao fundo do baú, cobrindo o espelho negro. Fechou a tampa, jogou a chave fora e saiu para a rua, para a luz do sol. Prometeu a si mesmo não mais mexer em coisas que dormiam o sono do esquecimento. Mas por um tempo, não conseguiu esquecer um texto da última página do livro:

"Em um quarto iluminado por uma única vela, se olhar ao espelho e entoar três vezes o nome Bloody Mary, verá um vulto de mulher carregando um natimorto nos braços. Ela vai assombrá-lo para sempre."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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