Colecionador etário

Por Fraga

Acho que nunca comentei aqui que coleciono idades. É um hábito antigo. Claro, exige tempo pra fazer um acervo, e é um processo lento: leva um ano, no mínimo, pra gente ter um novo exemplar.

Quando comecei a juntar idades nem me dei conta que praticava tal colecionismo. Era jovem, inexperiente nesse costume hoje tão sério. No início parecia um hobby: preferia colecionar amizades, jogos e brincadeiras; mais tarde descobri as paixões, os estudos, os trabalhos. Nessa época, nem contava quantas idades havia acumulado. Empilharam quase sem eu sentir.

Depois que nos damos conta da longevidade, que é o coletivo das idades, surgem os apelidos pra cada uma, independentemente se foram boas e prazerosas, difíceis ou complicadas. Fases, etapas, períodos, é por aí que costumamos rotular as idades. Haja rótulos.

A variedade é imensa. Se o sujeito é organizado, as idades ficam catalogadas na memória, com ficha técnica e tudo. Você não pode misturar idades que têm rugas com idades com muito cabelo. Não combinam. Nem idades cheias de entusiasmo com idades já amarguradas. As idades com fôlego e aquelas com artrite. As com tesão e as com solidão. Etc.

É divertido conferir uma coleção de idades, desde que sem o pretexto do saudosismo, essa âncora sentimentalista, às vezes até retrógada. O engraçado é que quanto mais nova a idade, menos poeira nela, e quanto mais recente é a que acrescentamos à coleção, mais difusa e encarquilhada parece.

Hoje percebo que, meio sem querer, cheguei a uma coleção maior: coleciono décadas. Já consegui 7! E tenho a ambição de reunir mais de 100, coisa que poucos conseguem. Matusalém, dizem, chegou perto de 90 décadas, mais de 800 idades!

O Luis Fernando Verissimo costuma dizer que fazer muitos aniversários sempre acaba mal. E revisitar a coleção de idades é uma espécie de tomografia das lembranças: cadê meus 8 anos? Estavam aqui, nítidos. O pior é a mistureba de idades: você tenta distinguir os 34 dos 42 ou dos 53, em vão - ficam todas muito parecidas.

Paro aqui o balanço da coleção. Antes que a idade crônica vire idade crítica.

 

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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