De lírios e delírios

Por Fraga

Acho que meu cachorro não tá bem. Outro dia levei ele ao Marinha do Brasil. Peguei um graveto, atirei longe pra ele buscar. Voltou com um folheto sobre a falta de árvores nas metrópoles. Juntei outro graveto, ameacei jogar pro alto. O cachorro saltou uns oito metros e ficou parado lá no ar, à espera do graveto. Mas eu não joguei. Gosto de brincar com gravetos atirados na horizontal. Pros lados todo santo ajuda. Se esse cachorro continuar a dificultar a brincadeira no parque, levo ele ao veterinário. Um cachorro castrado tende a respeitar a lei da gravidade.

Outro dia apareceu caruncho num gavetão da cozinha. Saíam de um saco de feijão. Abri o saco, derramei os feijões sobre a mesa. Logo os carunchos se espalharam pelo tampo.

Dizem que não fazem mal à saúde nem alteram o gosto dos alimentos. Fiquei olhando para os bichos, pra lá e pra cá. De repente, pararam com aquele andar aleatório. Então formaram fileiras. Contei 12 x 8 carunchos. 96 bichinhos. Fiquei admirado pela ordenação conseguida. Aí se moveram e se reorganizaram: dois grupos, um de 5 x 6 e outro de 9 x 7, total de, deixa ver. É, 86. Matei todos. Caruncho que não sabe nem contar não merecem a comida que comem.

Na Praça de Alfândega, um bando de aposentados e outro de pombos jogam damas. Disputam partidas por milho. De bicada em bicado, movendo as pedras, os aposentados desistem da jogatina. É humilhação demais. Resolvo jogar. Meu parceiro é um pombo de uma patinha só. Acho que foi comida por alguma ratazana no alto dos prédios, à noite. O rato, digo, o pombo movimenta as pedras com esperteza. Não tenho tanta estratégia. Eis que percebo o pombo saltando de um ponto pra uma fileira errada. Aponto o erro, ele balança e faz um esvoaçar que espalha todas as pedras. Sem saber se ele estava ou não roubando, atiro farelo de pão onde pinguei pimenta. Eles comem e o alvoroço começa. Vou pro bebedouro e não deixo nenhum chegar perto.

Meu cachorro não tá bem, o caruncho não tá bem, o pombo não tá bem. Já eu, me sinto ótimo. Vou comprar uns lírios pro vaso da sala.

 

Modelar

O hino do Rio Grande do Sul estava quase pronto, letra e música. Faltava um refrão. Tinha que ser algo bom, que arrebatasse os corajosos, encorajasse os covardes, animasse pessimistas, curasse moribundos, alumiasse horizontes. As sugestões choveram até que apareceu um que acalmou as coxilhas: "Sirvam nossas façanhas de modelo a todo o Universo". Um delírio ecoou, até o gado vibrou. Era sob medida, dava a real dimensão da nossa capacidade de luta e resistência. Nele cabia, em apenas três linhas, todo o brio pampiano. Ia além: abarcava várias das nossas ânsias - arrogância, jactância, petulância. E englobava tudo que se podia imaginar de prepotência no cosmos. Ninguém ia nos ganhar em orgulho, inda mais com uma melodia dessas de fundo! O problema é que havia gente de bom senso ouvindo. E esses mais discretos pediram: "Menos, gente, menos." Não houve outro jeito senão abaixar um pouco a crista da canção. "Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a nossa galáxia." E não é que funcionava? Estropiava um pouco a métrica, mas sim, já não era mais um refrão tão excessivo. Porém, bastou ser ensaiado e cantarolado algumas vezes e lá veio a modéstia exigir algum comedimento. Não ficava bem gritar ao espaço tamanha empáfia. Vai que houvesse vida inteligente por aí e essa inteligência sideral se sentisse, digamos, provocada. Melhor reavaliar o júbilo pela nossa tradição guerreira. O mais sábio dos poetas da ocasião consertou. "Sirvam as nossas façanhas de modelo a todo o Sistema Solar." Perfeito, não extrapolava nada, nossa influência sabia o seu lugar, afinal! E o canto entoou uníssono, um coral de guascas em aprovação. Bonito aquilo. Mas. Olharam feio pro bagual que discordava de estrofe tão apaziguadora. Ainda passava da conta. Discutiu-se muito, cantores e compositores rearranjando o estribilho final, rédea curta na bravura. A contragosto, chegou-se a um consenso. Doloroso, de tão redutivo. "Sirvam as nossas façanhas de modelo a toda Terra." Ooohhhhh!, um murmúrio contrariado percorreu a vastidão. Tal concessão destoava da raça, ameaçava a harmonia da música. Até que uma voz soberana, herdeira da cautela gaudéria, sentenciou, numa baforada de palheiro: "Mesmo contido, tá bom assim. Não mexe mais no hino."

Autor
Fraga. Jornalista e humorista, editor de antologias e curador de exposições de humor. Colunista do jornal Extra Classe.

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