De volta ao Ritz

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Emerge um dos marcos da prosa de

Ernest Hemingway, sua paixão por Paris."

(Andrew F.Gulli, The Strand Magazine)

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Em 1956, quando escreveu o conto 'A Room on the Garden Side', Ernest Hemingway já não vivia seus melhores dias. Publicado seis décadas após o trágico fim do escritor, em 1961, com duas mil palavras, é uma típica short-story, gênero tradicional na literatura norte-americana. A ação é narrada na primeira pessoa, por um escritor norte-americano, de nome Robert e se passa em agosto de 1944, quando da libertação de Paris da ocupação nazista. O tema e o local escolhido - o Hotel Ritz, na Place Vendôme - são bem familiares aos leitores de Hemingway e duas das obsessões parisienses do escritor.

Mas não é preciso ir além dos primeiros parágrafos para o leitor entender que Robert é um alter ego de Hemingway. O título reporta a memória do quarto com janela para o jardim interno do hotel, que o escritor ocupou durante sua segunda temporada em Paris. A guerra está terminando, os soldados limpam as armas, discutem literatura francesa e chamam Robert de Papa.

A certa altura, Robert abre uma garrafa de Perrier-Jouët Brut enquanto observa a luz do sol no jardim. A seguir, o grupo sai do hotel prometendo libertar Paris. Hemingway guardava um carinho especial pelo Hotel Ritz, que usou como pano de fundo em 'O Sol Também se Levanta'. Em 1944, com as forças de ocupação alemãs abandonando Paris, o escritor, que era correspondente de guerra, chega no hotel com soldados em um jeep e anuncia na portaria que viera para libertá-los. Quando é informado de que os oficiais alemães já haviam deixado o local, o grupo 'liberta' o bar do hotel e liquida com metade do estoque de champanhe.

O Robert de 1956 não é o mesmo alter ego que aparece em 'O Sol Também se Levanta'. Na novela, o protagonista Jake faz uma pausa na ação e o escritor insere um dos primeiros insights que seriam frequentes e suas futuras novelas:

"Talvez, com o tempo, acabamos por aprender algumas coisas,

pouco importa o que seja.

Tudo o que eu desejava era saber como viver.

Talvez, aprendendo como viver, acabemos compreendendo o que há realmente no fundo de tudo isso."

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Em 'A Room on the Garden Side', Ernest Hemingway viaja de regresso aos melhores momentos de suas estórias de guerra. Nos reconduz a 'Por Quem os Sinos Dobram' e às suas primeiras novelas, 'Adeus às Armas' e 'O Sol Também se Levanta'. Desafortunadamente, nesta nova publicação não mais existe o texto enxuto, aguçado e provocador que  nos cativou nas estórias curtas de Nick Adams.                                                               

Ao escrever 'A Room on the Garden Side' no Verão de 1956, Hemingway parece ter buscado inspiração nas aventuras vividas em duas guerras mundiais. O manuscrito, 15 páginas escritas a lápis, faz parte da Coleção Hemingway da Biblioteca John F. Kennedy, em Boston. Ainda restam quatro estórias curtas da mesma época, aguardando publicação. Kirk Curnutt, diretor da Hemingway Society faz suspense:

"- São estórias com a marca registrada que mais amamos em Hemingway: a festa permanente de Paris."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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