Definitivamente, eu não gosto do Verão

Por Márcia Martins

Sei que a estação apresenta lá os seus atrativos. Sei que os dias quentes podem sugerir encontros no final da tarde para tomar umas cevas bem geladas e jogar conversa fora com os amigos. Sei que experimentar diferentes sabores de sorvetes ali na tradicional Cronks, na Rua Felipe Camarão, e descobrir novos prazeres (embora eu sempre insista em adocicar meu paladar com bolas de doce de leite, leite condensado e uva) é algo dos Deuses. Sei que passear pelo Mercado Público e se lambuzar com a deliciosa salada de frutas e nata da Banca 40 tem um uma sensação especial e indescritível quando as temperaturas se elevam. Mas, apesar de todas as vantagens, eu definitivamente, não gosto nada, nadinha do Verão.

E não adianta procurar em colunas anteriores para descobrir algum texto em que eu afirme gostar do Verão. Tenho certeza de que vocês não encontrarão. Lembro, sim, de ter escrito, mais de uma vez aqui no portal, dos encantos e satisfações permitidas pelo Outono e Inverno. Dos encontros, das possibilidades, das trocas, dos afetos e de tudo o que o tempo mais frio, mais melancólico, mais aconchegante, até com alguma chuva, estimula nas pessoas. Mas creio que nunca confessei amor ou simpatia pelo Verão.

Mesmo que ele não tenha ainda iniciado oficialmente e, pelo que consta, o Verão só terá seu começo em 21 de dezembro no Hemisfério Sul, os últimos quatro dias, a contar de sábado, já forneceram uma prévia do caos que se instala quando a temperatura se eleva. As pessoas já saem do banho matinal respingando suor. Aliás, ao se dirigir do quarto para o banheiro, tão logo se desperta do sono noturno, o corpo já mostra sinais de cansaço com o calor excessivo no início da manhã. Quando a rua chama para algum compromisso profissional, particular ou de lazer, é normal sair já com aspecto nojento de fadiga, de enfadonho ou de esgotamento.

O perfume parece que está sempre vencido porque nunca é o suficiente até porque a mistura do aroma com o suor não chega a produzir um cheiro tão agradável. Um único banho no dia nunca é suficiente. Chega-se ao exagero de quatro banhos em apenas 24 horas. A maquiagem, por melhor que seja a marca, não resiste à temperatura alta e os rostos das mulheres exibem traços borrados resultados dos primeiros sintomas do calor. As roupas grudam nos corpos e fornecem uma sensação angustiante de não pertencimento. A conta da luz aumenta assustadoramente pelo uso frequente de ventiladores e de aparelhos de ar condicionado. E a balança, fatalmente, mostra que os ponteiros sobem pelo abuso desenfreado de sorvetes, picolés e sucos gelados.

Claro que o Verão tem as suas vantagens. Evidente que o calor traz os seus atrativos. Mas eu ainda prefiro a elegância do Inverno com suas roupas agasalhadas, imponentes, as echarpes, pashminas e os bonés. Ainda sou mais apaixonada pelas iguarias quentes e fumegantes do Inverno. Ainda me sinto mais tentada a sair nas noites melancólicas do Outono e bebericar um bom vinho do que deleitar-me nas madrugadas do Verão a sorver goles e goles de cerveja estupidamente gelada. Ainda encontro mais inspiração para tudo no entardecer dos cenários das estações mais frias. Ainda escolho os cinemas, as leituras, os cochilos, as jantas, os encontros, o compartilhar de ternuras quando os termômetros marcam temperaturas mais baixas.

Posso estar sendo precipitada ao descartar, assim, nos primeiros dias e noites mais quentes, as belezuras do Verão. Devo estar enjoada com as primeiras enxaquecas que os últimos quatro dias me trouxeram. Creio que fiquei aborrecida com o suor excessivo, com as roupas colando, com o excesso de banhos, com as gramas adquiridas com as bolas de sorvete. Enfim, ainda não estava preparada para este calor infernal. Definitivamente, eu não gosto do Verão.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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