Dez por cento

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Um bom livro é resultado de 10% de

                                              inspiração e de 90% de transpiração."                                            

Ernest Hemingway.

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O argentino Jorge Luis Borges passava longos minutos, por vezes mais de uma hora, diante da janela que se abria para a Avenida Avellaneda, em silêncio total. Cego, não podia ver os plátanos que perdiam as folhas, tocadas pelo vento austral. Mais tarde, junto à lareira, ditava palavras que comoveriam leitores em metade do planeta.

Para o romancista Carlos Fuentes, que conviveu com o poeta, ele foi um enigma para seus biógrafos. Sua vida exterior era monástica, aborrecida e desprovida do charme e do alure mundano que movimentou escritores, como Arthur Rimbaud ou Ernest Hemingway. Mas de uma forma ou outra, Borges sabia recolher inspiração nos misteriosos meandros de seu interior, mesmo sem enxergar o que acontecia do lado de fora de sua janela.

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Edward Hopper, o intrigante pintor norte-americano do entre guerras, fez como muitos jovens artistas de sua geração - viajou para Paris em busca de inspiração. Lá estudou pintura, visitou museus e frequentou academias. Mas quando lhe perguntaram de que artistas retirara sua inspiração, respondeu:

"- De nenhum deles. Ouvi falar de Gertrude Stein e Pablo Picasso, mas preferi ir a cafés, sentar e observar as pessoas."

E, para espanto geral, declarou que a pintura dos impressionistas não lhe havia causado nenhum impacto. Mas, mais tarde, quando visitou o Rijkmuseum, em Amsterdam, quedou-se fascinado pela "A Ronda Noturna", passando muitas horas diante do quadro. Em novas viagens à Europa, em 1909 e 1910, voltou a Amsterdam e foi revisitar a pintura. A um amigo, confessou que a pintura de Rembrandt lhe evocava a solidão humana. Mais de 10 anos depois, Edward Hooper produziria sua primeira obra-mestra, "A Casa perto da Linha Férrea", uma paisagem que simplesmente mostra um casarão e uma linha de trem - uma evocação perfeita da solidão do viajante.

O mesmo tema da solidão humana voltaria no icônico "Os Falcões da Noite", que flagra um bar de New York, onde quatro notívagos não se falam nem se olham. Não por acaso, ele pintou o quadro dias após o ataque a Pearl Harbour. Em algum momento, durante suas viagens solitárias a Paris e Amsterdam, Edward Hooper recolheria a mesma inspiração que Borges buscava do lado de fora da janela. O ataque japonês deflagrou o processo criativo.

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O norte-americano William Sydney Porter nunca assinou o que escrevia. Mas com o pseudônimo de O'Henry produziu 300 fascinantes contos, que estão entre o melhor da literatura americana moderna.  Ele fracassou em várias profissões - balconista, cowboy, professor primário, guarda-livros e repórter free-lancer. Andou sem destino nos Estados Unidos e na América Central. Acusado de fraude, começou a escrever em uma cadeia do Texas, usando lápis e papel de caderno. Publicadas em revistas e jornais, suas estórias ficaram populares do dia para a noite. Os contos de O'Henry são curtos, marcados por ironias, coincidências estranhas e personagens insólitos. As paisagens que descreve são sempre de outono ou de inverno, que ele devia vislumbrar do lado de fora das grades de sua cela.

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Para Marcel Proust, Élisabeth de Caraman-Chimay era "a mulher mais linda de seu tempo." Mais conhecida como Condessa de Greffulhe, arrancava suspiros por sua beleza e elegância nos salões parisienses. No ano passado, o Fashion Institute of Technology, de New York, promoveu uma exposição com 40 grandes vestidos da condessa, que teriam sido motivo de inveja por parte das damas da alta sociedade francesa.

O título da mostra, "A Musa de Proust, a Condessa Greffulhe", revela um segredo pouco conhecido da vida amorosa do autor de "Em Busca do Tempo Perdido" - de que Élisabeth de Caraman-Chimay era o grande amor de Marcel Proust, com quem viveu uma história tumultuada e secreta. Inclusive, aventou-se que ela teria sido a musa inspiradora na criação da protagonista de Guermantes.

Em 1906, Proust entraria em reclusão para escrever os sete volumes de sua novela. Mesmo apaixonado pela condessa, a ignorou durante todo o tempo de isolamento. Embora negasse o romance, a troca de correspondências entre eles, sugere que Élisabeth foi mesmo uma fonte de inspiração.

Todavia, para muitos escritores, os 10 por cento de que nos fala Hemingway não estão em uma grande pintura ou em una bela mulher. Como para Anton Chekhov, que escreveu:

"Não encontro inspiração no brilho da lua, mas no faiscar de um vidro quebrado."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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