Eu vou à luta com essa juventude

Por Márcia Martins

E quando a gente imagina que tudo está perdido, que nada mais tem salvação, que nem o sangue de Jesus tem poder para reverter o caos instalado e que o fim do mundo está perto - a apenas alguns dias, talvez logo ali no final do ano - o vigor, a força, a coragem e o brilho nos olhos dos jovens nos trazem um novo ânimo. Ao ver os braços vitoriosos segurando e erguendo os canudos da conclusão de grau, as mãos um pouco trêmulas ao acenar para os familiares na plateia, os abraços calorosos entre colegas de faculdade que agora irão se enfrentar no acirrado mercado de trabalho, a emoção dos paraninfos e professores homenageados e, principalmente, a firmeza e maturidade dos discursos.

Foi assim na formatura de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas da Fabico, da Ufrgs, na última sexta-feira, 10. Tudo ocorreu diante de um Salão de Atos lotado de gente de todos os cantos e famílias diversas, remodelado às pressas para a instalação de uma rampa a fim de que um cadeirante pudesse exercer o seu direito de entrar na formatura pelo mesmo caminho que os seus colegas. Tudo aconteceu no espaço de tempo de quase duas horas e meia, recheadas de homenagens, lágrimas que escaparam, cabelos ondulados e caprichados nas escovas e a fé no futuro simbolizada em cada menina e menino que ia receber o tão esperado canudo.

Ao observar as cenas daquela noite de formatura, tive a certeza de que ainda há esperança, que é possível crer na integridade das pessoas, de que ainda existe chance de se reverter este mundinho tão besta, tão sem vida, tão sem cor, tão sem horizontes. Vão me dizer que formatura é tudo igual. Não é. Vão afirmar que a emoção dos pais é sempre a mesma. Não é. Vão querer me convencer que os discursos são marcados pelo tom da liberdade, da euforia e do empreendedorismo. Não é. Ouso dizer que aquela formatura da Fabico foi diferente. Teve cadeirante entrando pela porta da frente, alunos cotistas provando seus desempenhos (como se precisassem) e lindas palavras de fé.

No discurso das formandas de Jornalismo Amanda Farias Hamermüller e Thaianny Pontes Barcelos, agora minhas colegas de profissão, a certeza de que tudo valeu a pena, mas que sabem a batalha que irão enfrentar a partir de agora. Nas palavras enfáticas das oradoras, o otimismo de quem acredita num mundo melhor e mais justo, apesar das inúmeras desigualdades sociais, raciais e de gênero, a confiança de que o sistema de cotas ainda é necessário para reduzir a disparidade de oportunidades para negros, indígenas e pobres, apesar do e-mail elitista e preconceituoso do professor da Fabico endereçado aos seus alunos em que acusou cotistas de fazerem 'corpo mole'.

Saí daquela noite de entrega de canudos na Fabico com o orgulho de conhecer, acompanhar parte do desempenho, pelo menos nos últimos dois semestres, de uma cotista que não fez 'corpo mole' e que foi escolhida para ser uma das oradoras do curso de Jornalismo. Obrigada Thaianny pelo convite para renovar a minha fé nesta juventude, nesta rapaziada que segue em frente e segura o rojão, que não foge da fera e enfrenta o leão, que não corre da raia a troco de nada. Foi revigorante ver o bloco de vocês construindo, nem que seja pela colocação de rampas emergenciais, um mundo desejado em que os direitos humanos sejam de todos e não de minorias privilegiadas.

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e secretária do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA). Tem o blogmarcinhaprodigio.blogspot.com. É mãe da Gabriela e avó dos caninos shih tzu Dalai, agora uma estrelinha, e do vira-lata Quincas Fernando.

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