Não inventem moda

      Certo dia um editor compareceu à reunião de pauta trajando calças pretas, sapatos pretos e meias azuis-bebê combinando com a camisa. A editora à …

      Certo dia um editor compareceu à reunião de pauta trajando calças pretas, sapatos pretos e meias azuis-bebê combinando com a camisa. A editora à qual estava subordinada a repórter de moda comentou com os presentes o quanto o admirava pela elegância, "sempre todo combinandinho". Como eu tinha a colega na mais alta conta, pela simpatia, pela inteligência e pelo pretenso bom-gosto, preferi interpretar a fala como um bem disfarçado deboche.
      Qualquer repórter sabe o quanto é duro fechar matéria com editor neófito e arrogante (o inverso também, mas neste caso o repórter acaba sendo demitido). Jornalistas, na maioria, são generalistas. Como diz a música, sabem "de quase tudo um pouco, e quase tudo mal". Até aí, com o perdão pelo jogo de palavras, tudo bem. Importante é apurar os fatos com precisão e apresentá-los de maneira correta, clara e atraente para o público. Não importa o assunto. Seguindo estas regras não tem como errar. Alguns temas, no entanto, exigem certa intimidade.
      Isso não significa defender o conceito da redação de especialistas. Tal expediente limita as potencialidades da equipe e conduz a vícios por vezes perigosos. O exemplo dos setoristas de automóveis é típico. Salvo exceções como a do competentíssimo e ético Gilberto Leal, a área é um clube fechado. Os poucos que se atrevem a invadi-lo viram alvo de chacotas. Os freqüentadores do clube não aceitam quem "não é do ramo". Na verdade eles é que não são de outro ramo, o do jornalismo profissional.
      A solução não está em abrir o setor para todo mundo, porque se não acabam mandando fazer teste-drive gente que não sabe dirigir, ou pilotar carrões em autódromos pessoas que consideram o automóvel um mal necessário e não aceleram além dos quarenta quilômetros por hora. É a velha história do "oito ou oitenta". A alternância é saudável, desde que seja feita com os profissionais adequados.
      Privilegiar a qualidade do texto é fundamental, mas não nos esqueçamos do conteúdo. Há vários jornalistas cujo ótimo texto serve para encobrir o desconhecimento de causa. Aí também não adianta. Editores têm entre suas obrigações a de escalar a pessoa certa para cada cobertura. Mas tudo vai por água abaixo se na hora do fechamento ele quiser fazer valer o seu ponto de vista em um assunto que não domina.
      É tudo uma questão de respeitar a opinião de quem entende. Sempre que me coube fechar uma notícia de moda, desde uma reportagem até uma pequena nota, me socorri de colegas como a Zélia Garcia ou a Mariana Kalil. Não machuca o ego admitir que o interlocutor sabe mais sobre o tema. Bem pior para a auto-estima é deixar o leitor perceber nossa ignorância. Na dúvida, não inventem moda. Já cansei de ouvir, por exemplo, o questionamento de entrevistadores famosos a estilistas idem sobre a praticidade de determinado modelo na "vida real". "Ah, mas ninguém vai usar isto na rua". E quem disse que ia? Dá vontade de entrar no aparelho de TV e obrigá-los a decorar: "Alta costura trabalha com tendências. Trata-se de uma roupa conceitual."
Dedicado a Zélia Garcia
( [email protected])

Autor
 Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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