Se há diferentes percepções, há diferentes verdades

Por Elis Radmann

Você já parou para pensar como é o trabalho de um instituto de pesquisa, como no caso do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião?
Sabe aquele momento da vida em que você se pergunta: será que sou só eu que penso assim? Será que sou só eu que acredito nisso? Será que sou só eu que tenho esta mania? Será que sou só eu que não gosto desta comida?

O mesmo ocorre com instituições, empresas, sindicatos, governos e partidos. Muitas perguntas são feitas, muitas hipóteses são elaboradas e que precisam ser confirmadas ou refutadas. A população está satisfeita com o seu prefeito? Por que o consumidor prefere uma marca e não outra? Os eleitores podem se manifestar contrários à reforma da previdência?

O trabalho de um instituto de pesquisas é compreender o que as pessoas pensam e o porquê de pensarem assim. Mas o pensamento não é único e isso faz com que a sociedade seja composta por diferentes tipos de ideias, de comportamentos, de hábitos e de percepções sobre a realidade. A realidade é uma, mas a visão da mesma é variada.

As diferenças comportamentais estão associadas às disparidades sociais, geográficas, econômicas, culturais, religiosas e, principalmente, ao nível de informação e conhecimento sobre temas cotidianos.

Vamos a um exercício simples. Imagine um entrevistador batendo à sua porta e fazendo a seguinte pergunta sobre o tema da descriminalização do aborto: Em sua opinião, a mulher que faz o aborto deveria ser criminalizada? E por qual motivo você tem esta opinião?

O resultado da pesquisa nos mostra que a maior parte dos gaúchos consideram que a mulher que pratica o aborto deve ser punida e criminalizada, mas os argumentos que balizam essa avaliação, sustentam-se em diferentes lógicas.

É como se cada um olhasse a realidade a partir de sua lupa, de sua janela. E é isso mesmo, cada um faz um juízo de valor a partir de sua sabedoria, que pode ter sido adquirida através das "regras da vida", de uma prática de conduta ou pelo saber sistematizado e fundamentado.

Vamos encontrar aqueles que são contra a descriminalização e estão alicerçados pelo princípio cristão. Acreditam que a vida começa na concepção e que a mulher não tem o direito de "tirar uma vida".

Há os legalistas, que afirmam que "a lei é igual para todos e precisa ser respeitada" e, nesse contexto, a punição seria necessária para manter a ordem e o respeito.

Tem aqueles que defendem que a criminalização do aborto é uma forma de educação sexual, incentivando as mulheres a utilizarem métodos contraceptivos.

E há aqueles que não sabem explicar o motivo pelo qual defendem uma ideia. E este grupo se subdivide em subsegmentos: os que não querem explicar, os que não sabem explicar e também há os que nem entenderam a pergunta.

 

E nesta análise nem estamos avaliando os que são contrários à criminalização do aborto e, que em sua maioria, afirmam que o direito individual da mulher deve ser respeitado.

Esse exemplo nos mostra que a realidade é composta por diferentes percepções e que estas estão embasadas de "verdades", de crenças ou de visões de mundo. Cada entrevistado acredita no que diz e só irá alterar a sua percepção se receber informações que façam sentido e dialoguem com o seu sistema de crença. Não é à toa que há uma corrente da sociologia que apregoa que "a verdade não existe". A verdade está contida em um conceito e como há muitos conceitos, há muitas verdades e como diz o dito popular "cada cabeça, uma sentença".

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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