As terríveis profecias do escritor britânico George Orwell em sua famosa obra “1984”, com a crua dominação da sociedade por parte do Grande Irmão, o Big Brother, terminaram se realizando neste começo de século 21. É verdade que sua imaginação já terá sido ultrapassada no século passado, em episódios antes não tão comuns. Mas agora, em nossos dias, bastante corriqueiros.
Estes dias de setembro, a jornalista Jane Wakefield, da BBC News Online, apresentava matéria onde dava recentes estatísticas sobre as câmeras de vigilância no Reino Unido. Lá, a imagem do cidadão comum é “capturada” por esses big brothers menores cerca de 300 vezes, a cada dia do ano. Wakefield diz que há 25 milhões destes dispositivos de vigilância só no Reino Unido.
“A visão [de Orwell] de câmeras vigiando cada passo do cidadão está muito perto de tornar-se realidade. E analistas prevêem que haverá um hipercrescimento destas câmeras, agora digitais, nos próximos cinco anos”, acrescenta a jornalista da BBC. Já o jornal “Daily Mail”, de Londres, na sua edição do dia 16 de setembro deste ano, apresentava esta manchete: “Big Brother is shouting at you”. Algo como: “O Grande Irmão está gritando para você”. É porque as modernas câmeras de vigilância não se limitam apenas a observar os movimentos das pessoas.
Agora, ao menos lá na Inglaterra, estes dispositivos também estão dando ordens aos cidadãos. Elas chegam a “condenar” o mau comportamento e atitudes inconvenientes, mandando que as pessoas se comportem com maior responsabilidade. Mas como isso é possível? É que os operadores das salas de controle destas câmaras, logo ao observar atos considerados anti-sociais — como brigas de ruas, tumultos ou pessoas que jogam o lixo nas calçadas, começam a abrir seus microfones para enviar mensagem direta aos infratores: “Cidadão, estamos vigiando você”.
Pois um escritor russo, bem antes de George Orwell, escreveu nos anos 20 uma outra obra profética, proibida na então União Soviética: seu título é “We” (“Nós”). Seu nome é Yevgeny Zamyatin. Seu romance de antecipação é aclamado nos círculos literários ocidentais como uma das maiores obras do século 20.
Num futuro, em um mundo inteiramente de vidro, sob a perpétua vigilância do Benfeitor, que tudo vê e tudo sabe, as pessoas não são mais pessoas. São apenas “números”, os sobreviventes de uma guerra devastadora. Suas vidas sob o tacão totalitário do Benfeitor são desprovidas de qualquer sentimento.
Eis que, de repente, o “número” D-503 – um matemático deste futuro imaginado por Zamyatin, que chega até a “sonhar em números”, fica tentado pela Paixão e levado a trair seu mundo dominado pela Razão.
O “The New York Times” classificou a obra do escritor russo como “notável”. E comenta: “Em parte ficção científica, em parte uma parábola, o livro também debate o papel da razão na vida humana. É ainda um duro julgamento contra o conformismo e a despersonalização do indivíduo”. E conclui o crítico do NYT: “Uma estranha mistura de fantasia e precisão, exata e assustadora como um pesadelo”.
Já o “Saturday Review” não deixa por menos: “We” é um marco literário de nosso século. E um alerta sobre o nosso futuro”. Mas quem foi Zamyatin? Ele nasceu na Rússia em 1884. Preso como um integrante do grupo bolchevique, durante a revolta popular de 1905, esteve exilado em São Petersburgo por duas vezes. Em 1913, anistiado, voltou-se para a literatura. “We” foi escrito entre 1920 e 1921. Mas a publicação desta obra foi vetada e recebeu duras críticas por parte do PCUS e de colegas intelectuais.
Mesmo assim, Zamyatin, durante aqueles anos do começo da Revolução Soviética, continuou publicando ensaios, críticas, peças teatrais e contos. Mas, em 1929, sua obra toda foi proibida. Foi quando o autor dissidente decidiu dirigir-se diretamente a Stalin, pedindo para deixar o país. Surpresa: o líder russo liberou o passaporte e o visto de saída, em 1931. Foi então que Zamyatin deixou a URSS e exilou-se em Paris. Ele nunca mais voltaria ao seu país. Morreu na capital francesa, em 1937.
A versão em inglês de “We” foi publicada apenas em 1972, com uma tradução e breve introdução de Mirra Ginsburg. Ela verteu do russo para o idioma de Shakespeare obras de autores famosos como Mikhail Bulgakov e Isaac Babel, entre outros. Ela também traduziu três antologias de ficção científica soviética.
O livro, nunca editado em português, ao menos no Brasil, é escrito em forma de diário, com dois a três tópicos. São duzentas e poucas páginas, um texto excelente, envolvente. E onde aparece – segundo Mirra Ginsburg – o credo principal do escritor dissidente. Nas palavras da personagem principal, que se contrapõe ao matemático D-503 : “Não existe uma revolução final. As revoluções são infinitas”. Há alguns pontos básicos em destaque nesta obra: a mudança eterna e a liberdade do indivíduo de escolher, de querer, de criar, conforme suas próprias necessidades e sua própria vontade. Estas idéias dominaram a vida e a obra deste autor tão elogiado. E tão pouco conhecido.
“Derrubaremos todos os muros – para deixar o vento verde soprar livremente de um ponto a outro em toda a Terra”, diz a personagem de “We”. Por estas e outras razões, ele foi detestado e cerceado por todos aqueles que à época em que ele viveu, e seus sucessores dos dias de hoje, exigiam e ainda exigem conformismo e total obediência aos padrões dominantes. “We” é obra também terrível como “1984” , e original. Segue a linha da sátira. Ao lado de outros que o antecederam, ou sucederam: Gogol, Tchekhov, ou William Golding (“O Senhor das Moscas” e Anthony Burgess (“Laranja Mecânica”). Talvez alguma editora brasileira se interesse, um dia, em publicar este antecessor dos “big brothers” de hoje em dia. Vamos aguardar.

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