Descobri que 30 de janeiro é comemorado no Brasil, o Dia da Saudade. Confesso minha total ignorância sobre a data e também que esta burrice não mudou a minha vida, nem mesmo após a sua descoberta. Tomei conhecimento da sua ocorrência na sexta-feira passada, quando amigos começaram a postar no Facebook mensagens relativas ao sentimento da saudade. E imediatamente lembrei que a saudade, embora seja uma palavra de origem latina do vocábulo “solitatem”, que quer dizer solidão, pode trazer memórias boas e remeter a momentos que já passaram, com chances quase nulas de serem repetidos. Mas que volta e meia, retornam a nossa mente e nos obrigam a visitar o passado como se fosse possível folhear um álbum de recordações sem reviver gargalhadas e lágrimas.
Pois sinto uma saudade de algumas brincadeiras de infância, como pular amarelinha, jogar cinco-marias (aqueles saquinhos com areias ou pedrinhas dentro) ou tomar banho de mangueira. Atividades que penso serem até desconhecidas de muitas crianças nestes dias em que a insegurança obriga a um isolamento no interior das casas e apartamentos e a falta de paciência e tempo dos pais empurra a tecnologia como lazer prioritário dos filhos. Na última tarde do ano passado, para atenuar um calor imenso e oferecer algo diferente para as crianças da família reunidas na casa do meu irmão, em Butiá, convidei a Lohana, o Lucas e o João Pedro para um banho de mangueira. A felicidade deles me contagiou e levou minha memória ao passado, no quintal da casa da Rua Doutor Mário Totta, numa zona sul de Porto Alegre ainda não habitada, em que abusei de todas as travessuras infantis permitidas.
Saudade de andar de bicicleta pela Rua Doutor Mário Totta e dar voltas imensas nas vias vizinhas. Saudade de reunir com as gurias da família Pacheco e agregadas e tomar chá de tarde ou fazer planos para o futuro. Saudade de sentar na escada da casa de número 3012 e observar os moradores chegando com as mãos carregadas de sacolas. Saudade de estudar para as provas no então Ginásio Mãe de Deus, com as amigas da escola, que reencontrei há pouco no Facebook. Saudade de ver, na companhia da minha mãe, os filmes que passavam na Sessão da Tarde e só depois fazer os deveres do colégio. Uma tarde destas qualquer de férias prolongadas, vi num canal da televisão fechada uma refilmagem de Lassie (cujo original da cachorra da raça collie passava incontáveis vezes naquela época), e veio à recordação desta fase da infância.
Ao relembrar as brincadeiras de infância e momentos passados com a minha mãe Mirthô Peçanha Martins (que partiu em julho de 2011), compreendi, mais uma vez, como saudade é uma palavra complicada de definir e traduzir. Conforme consulta ao Google e tendo como fonte a Wikipédia, o léxico “saudade” é exclusivo das línguas portuguesa e galega. O mesmo site diz que uma empresa britânica, com a colaboração de mais de mil tradutores, criou uma lista onde aparecem as palavras mais difíceis de tradução em todo o mundo. Na tal lista, a palavra saudade foi considerada a sétima mais difícil de ser traduzida no mundo todo. Talvez, por isso, quando a gente pensa em saudade, os sentimentos se misturam e florescem emoções boas e negativas.
Por conta destas incoerências e dificuldades desta palavra, desde o tal dia 30 de janeiro, desenvolvi uma saudade gastronômica. Perdão se farei vocês salivarem com meu comentário. Fiquei com uma vontade incontrolável de comer as maravilhosas trufas que mamãe Mirthô fazia, com habilidade insuperável na cozinha, com recheios de chocolate, de doce de leite, de cereja, de licor, de castanhas, de noz, de avelã. Aquela fina camada de chocolate que se derretia na boca e que mamãe preparava com muito amor para vender a fim de aumentar a sua renda. E que eu invariavelmente levava para vender nos locais onde trabalhava. Depois, quando fui morar novamente com ela, depois de separada, mamãe preparava especialmente para a neta Gabriela o recheio da trufa sem formatar e deixava em pequenos potinhos na geladeira para o consumo da minha pimpolha.
A saudade de minha mãe não me abandona um único dia. Não tem data marcada no calendário. É um sentimento que me persegue em momentos variados, no shopping, no cinema, nas caminhadas, nas minhas tentativas de incursões culinárias, nos encontros de família, nas datas festivas. Em momentos bons e em momentos ruins, quando peço, com humildade, a sua intervenção, esteja ela onde estiver. E adoto, por isso, como um mantra, um pequeno poema do Carlos Drummond de Andrade, intitulado “Ausência”. Ele diz: “Por muito tempo, achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e dança e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.

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