A gente tenta se afastar, mas o futebol sempre dá um jeito de nos puxar de volta. Passei dez anos imerso na engrenagem do marketing do Grêmio, vivendo o jogo por dentro, entre reuniões, estratégias e decisões. Quando saí, ao final de 2022, prometi a mim mesmo um tempo longe. Um respiro. Mas nunca realmente desliguei. O futebol tem dessas coisas: você pode até parar de trabalhar com ele, mas ele continua trabalhando dentro de você.
Foi a Copa do Mundo que fisgou a minha atenção de novo, e a vontade de externar opiniões sobre esse esporte que tanto nos apaixona. E o gatilho definitivo veio no último domingo, ao assistir aquela final. Não foram os números de audiência, o impacto nas redes ou os milhões em patrocínios que me chamaram a atenção, embora tudo isso exista e seja relevante. O que realmente me pegou foi o que aconteceu dentro das quatro linhas.
A Espanha campeã nos presenteou com algo que parecia meio esquecido por estas bandas: a bola como protagonista. Não como acessório, não como elemento de transição rápida ou desculpa para chutão. A bola tratada com cuidado, com propósito, como se cada passe carregasse uma intenção. Vi ali um time que entendeu que talento coletivo não anula o individual, e que organização tática não precisa ser sinônimo de robotismo. Havia troca de passes, aproximação, movimentação inteligente. Havia, acima de tudo, um prazer visível em jogar futebol.
Sem tirar o mérito da Argentina, que fez uma campanha sólida apoiada no brilho de um jogador fora de série, a Espanha jogou um futebol que nos soa familiar. Ou melhor, que deveria nos soar familiar. Porque o que vimos ali, com a camisa vermelha, foi uma página do nosso próprio manual.
Lembrei do Flamengo de 81 e 82, daquele time que encantava não só por vencer, mas por como vencia. Lembrei do Internacional de 75 e 76, da solidez com classe. E para não referir apenas anos muito distantes, lembrei, também, do Grêmio de 2016 e 2017, que redescobriu o caminho do bom futebol num momento em que o resultado parecia ter engolido o espetáculo. Times que sabiam que, antes de ser tática, o futebol é jogo de bola. E o jogo se joga com a bola nos pés.
Olho para o futebol brasileiro de hoje e vejo um cenário que me preocupa. O pragmatismo tomou conta. A criatividade deu lugar ao medo de errar. As transições diretas, o jogo reativo, a entrega da bola ao adversário como estratégia. A janelinha, o drible da vaca, o balãozinho, ícones da criatividade brasileira, foram aposentados antes do tempo. Em seu lugar, entrou um futebol mecânico, de posicionamento rígido, onde inventar virou quase um ato de rebeldia.
Não quero aqui fazer nostalgia barata, daquelas que dizem que antigamente era melhor. Não era. Mas algumas marcas não podem se apagar no tempo. E a marca do futebol brasileiro nunca foi moda passageira. Foi referência. Foi escola. Foi o que o mundo inteiro tentou copiar.
A Espanha nos mostrou, nessa Copa, que aprendeu direitinho a lição. Que soube aproveitar os melhores fundamentos de um futebol que um dia foi nosso. E que bom que nos lembrou disso.
Agora é torcer para que a inspiração chegue logo aos clubes, aos treinadores, aos jogadores. Que a gente volte a valorizar quem tem coragem de tentar um drible, quem olha para o lado e procura o companheiro bem perto, quem entende que futebol não é só vencer, mas como se vence.
Porque a bola, essa redonda ingênua e teimosa, continua rolando. E esperando que a gente aprenda de novo a tratá-la com o carinho que ela merece.


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