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A burrice do leitor

      A frase “nunca subestime a burrice do leitor”, ouvida em respeitáveis reuniões de pauta, não precisa ser levada tão a sério por alguns veículos. …

img src=”fotos/coluna_eliziario_13_08.jpg” align=”right” border=”1″>      A frase “nunca subestime a burrice do leitor”, ouvida em respeitáveis reuniões de pauta, não precisa ser levada tão a sério por alguns veículos. Tal premissa, somada ao conceito da informação precisa, ainda que inútil, pode conduzir a situações que beiram o ridículo. O crédito “Montagem”, da ilustração publicada no site da Globonews – mas tanto faz, tem casos iguais em toda parte -, é um bom exemplo desse exagero. Sem o crédito, será que o leitor pensaria se tratar de quatro homens-tronco, cortados pela natureza de forma aleatória e capazes de flutuar em uma névoa azulada? “Nunca se sabe, não se pode subestimar a burrice do leitor”, diria um soldado da precisão.

      A mídia tem de ser honesta mesmo em detalhes que não são, afinal, tão pequenos assim, como deixar claro se algo é ao vivo ou gravado, se são cenas do dia ou de arquivo. Mas também não é necessário colocar o “Arquivo” no canto da tela ao mostrar imagens esmaecidas – o que já é um sinal de antiguidade – de um Paulo Coelho jovem, nos tempo de maluco beleza, com fartos cabelos negros, durante reportagem em que ele aparece como novo membro da Academia Brasileira de Letras, grisalho e bem comportado nos trajes e nas palavras. “Temos de ser honestos com o telespectador e falar que é arquivo”, diria um guardião da ética.

      Situação semelhante ocorre, como brincaria o João Souza, “nos dizeres embaixo do retrato”. Eu sinto minha burrice superestimada toda vez que leio uma legenda do tipo “Julia Roberts (esquerda) e o Papa”. Se o sujeito não sabe a diferença, jornal nenhum do mundo será capaz de lhe explicar. É claro que o exemplo é exagerado, mas nem tanto. Vê-se coisa muito próxima disso em certos jornais. “Temos de ser didáticos”, diria um baluarte da clareza.

      Tudo isso é irrelevante e nem mereceria ser discutido se a mídia sempre exigisse quanto ao conteúdo o mesmo rigor observado em relação à forma. O leitor, do alto de sua superestimada burrice, deve acreditar que tanta honestidade em legendas e vinhetas represente isenção, independência, imparcialidade e outros mitos difundidos pelos veículos e seus “formadores de opinião” (expressão que merece comentário à parte qualquer dia desses). Jamais lhe passaria pela cabeça duvidar da precisão de um veículo que lhe mostra a diferença entre o Papa e a Julia Roberts.

Dedicado a Guaracy Andrade

([email protected])

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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